Um complexo esquema financeiro envolvendo a Nova Cimangola, empresa do sector público angolano, está a levantar sérias questões sobre gestão de fundos públicos, conflitos de interesse e favorecimento empresarial. A operação, com epicentro na reestruturação de uma dívida de 30 milhões de dólares contraída junto do Banco Montepio em 2015, resultou numa operação financeira que triplicou o valor da dívida — agora paga pela própria Cimangola a uma empresa privada, a Transkamba.
Em 2015, a Cimangola recorreu a um financiamento de 30 milhões de dólares junto do banco português Montepio para construir a sua segunda unidade industrial, localizada no Sequele, em Cacuaco. O empréstimo permaneceu na carteira do banco até setembro de 2023, quando foi adquirido pela empresa Transkamba por apenas 6,5 milhões de dólares. A transacção teve uma particularidade inquietante: o montante utilizado pela Transkamba para adquirir a dívida veio da própria Cimangola.
Pouco depois, a Cimangola acordou com a Transkamba o reembolso do montante revendido – agora inflacionado para 39 milhões de dólares – sob a forma de entregas diárias de cimento.
O Envolvimento de Altos Quadros da Empresa
A negociação foi orquestrada sob a liderança de Pedro Mariano Campos Pinto, que ocupava a presidência do Conselho de Administração da Cimangola até março de 2025. Toda a engenharia financeira envolveu ainda a participação directa do então director jurídico da empresa, André Barreiros. Registos de correspondência mostram que ambos coordenaram as comunicações com o Banco Montepio e com o Banco de Crédito do Sul, numa operação que deixou Wei Lin — proprietário formal da Transkamba — apenas como figura secundária nas negociações.
A administração da Nova Cimangola defende a operação, alegando que o acordo permitiu reduzir o passivo da empresa e evitar pagamentos em divisas, numa altura em que o acesso ao dólar estava altamente restrito. Acrescenta que o pagamento com cimento implicava um “desconto considerável” em relação ao custo de produção.
Além disso, a empresa sustenta que o negócio foi avaliado por entidades reguladoras como o Banco Nacional de Angola, Banco de Portugal e o Banco Central Europeu, e que contou com consultoria jurídica internacional.
A trama financeira vai além da simples renegociação da dívida. A Transkamba partilha endereço com outras entidades ligadas ao caso, como a Andali e a Sociedade de Fomento Industrial (SFI). Estas empresas estão formalmente registadas no mesmo local que serve de residência oficial de Wei Lin, em Viana, nos arredores de Luanda.
A própria SFI entrou no circuito da dívida em outubro de 2024, quando a Transkamba lhe cedeu 75% dos direitos do crédito adquirido ao Montepio, no valor de 25,8 milhões de dólares. Dias depois, Pedro Pinto vendeu à mesma SFI uma pequena participação de 0,10% na Cimangola por um milhão de dólares — operação considerada, por analistas, como uma possível manobra de valorização artificial de activos.
A partir de 2019, a Cimangola iniciou a exportação de clínquer para a empresa espanhola PSE Cement Trading, num modelo FOB. Apesar do valor médio internacional do produto oscilar entre 55 e 60 dólares por tonelada, a Cimangola vendeu o clínquer a apenas 28 dólares. Em paralelo, a PSE realizava pagamentos em comissões a empresas como Andali e Techbelt — ambas com ligações a antigos quadros da Cimangola.
Entre 2022 e 2023, mais de 9 milhões de dólares foram pagos em comissões: 6,8 milhões à Andali, 1,7 milhões à Techbelt e quase meio milhão a Wei Lin, transferido directamente para uma conta no Novo Banco, em Portugal.
Segundo os registos consultados, esses pagamentos em comissões foram depois utilizados para adquirir o crédito junto ao Montepio — completando assim o ciclo do esquema.
A administração da Nova Cimangola nega irregularidades, sublinhando que a empresa é auditada externamente pela Deloitte e que tem apoio interno da KPMG, sem quaisquer reservas registadas até ao momento. No entanto, as provas documentais mostram uma rede intrincada de relações entre gestores da empresa, fornecedores, bancos e empresas off-shore.
Apesar da gravidade das denúncias, até ao momento as autoridades de supervisão financeira e de justiça mantêm-se em silêncio.
Conclusão: Gestão Pública ao Serviço de Interesses Privados
O caso Nova Cimangola reflecte uma realidade preocupante: a instrumentalização de empresas estatais para beneficiar círculos privados, por via de contratos e operações legalmente estruturadas, mas eticamente comprometedoras. Ao permitir que uma dívida pública fosse transformada num lucro privado, com recursos da própria empresa, os gestores envolvidos levantam sérias questões sobre a integridade da gestão pública em Angola.
Enquanto isso, a Cimangola continua a ser promovida como exemplo de sucesso industrial, tendo sido recentemente premiada como maior exportadora nacional fora do sector petrolífero.
No entanto, por trás dos galardões e da fachada produtiva, esconde-se um modelo de exploração institucional da coisa pública – que aguarda por escrutínio real e responsabilização efectiva.

