Luanda — Angola assinala hoje o ponto alto das comemorações do cinquentenário da independência, com um grande ato público junto ao Memorial Doutor António Agostinho Neto, em Luanda. O evento, que reúne milhares de cidadãos e cerca de 50 delegações estrangeiras, inclui um desfile militar e o discurso do Presidente João Lourenço.
As celebrações, que decorrem ao longo de todo o ano, têm sido marcadas por homenagens, eventos culturais e desportivos. Várias figuras históricas, incluindo os pais da independência — Agostinho Neto, Holden Roberto e Jonas Savimbi —, foram condecoradas. Uma tournée nacional com artistas angolanos percorreu o país e, na próxima sexta-feira, Angola enfrenta a Argentina num jogo amistoso no Estádio 11 de Novembro, em Luanda.
O ministro de Estado e chefe da Casa Civil do Presidente, Adão de Almeida, descreveu o momento como um “acontecimento único”, sublinhando que se trata de celebrar “a dimensão histórica de um povo que se libertou do colonialismo e soube preservar a sua soberania”.
No entanto, nem todos partilham o mesmo entusiasmo. Para o analista político Agostinho Sicatu, o país “continuará com os mesmos problemas”, considerando que as celebrações resultam apenas em “gastos excessivos”. Segundo o especialista, as festividades não trarão melhorias concretas na vida dos cidadãos.
Entre os custos mais mencionados estão os cerca de 12 milhões de euros pagos à seleção argentina para o jogo amistoso e mais de 30 milhões de dólares destinados às atividades gerais das comemorações.
“Depois da festa, a fome, a pobreza, a falta de educação e de condições de saúde continuarão”, lamenta Sicatu, lembrando que mais de 17 milhões de angolanos vivem em situação de pobreza. Dados do Índice Global da Fome 2025 apontam que 47,7% das crianças no país sofrem de atraso no crescimento e mais de 22% da população enfrenta subnutrição.
Francisco Teixeira, presidente do Movimento de Estudantes Angolanos (MEA), também criticou a falta de investimentos nas áreas sociais, sobretudo na educação. “Temos mais de quatro milhões de crianças e jovens fora do sistema de ensino. Muitas estudam em condições precárias, usam latas como carteiras e caminham quilómetros para chegar à escola, enquanto os governantes só pensam em festas”, afirmou.
Para Teixeira, “as celebrações dos 50 anos não trazem giz para as escolas nem merenda escolar”, sublinhando que o entusiasmo das festividades contrasta com as dificuldades enfrentadas pela maioria da população.
Apesar das críticas, o feriado prolongado desta terça-feira marca meio século de independência, um marco histórico que desperta sentimentos de orgulho e reflexão. Angola celebra as conquistas alcançadas desde 1975, mas também encara os desafios persistentes que limitam o desenvolvimento e o bem-estar social.

