Luanda – Declarações recentes de Norberto Garcia, diretor do Gabinete de Estudos e Análises Estratégicas (GEAE), suscitaram críticas e reações intensas ao abordar a figura de Diogo Cão – o navegador português que chegou à foz do rio Congo em 1482 – e a questão da corrupção em Angola.
As observações, consideradas contraditórias e pouco fundamentadas, transformaram Garcia em alvo de sátiras nas redes sociais e meios de comunicação. A controvérsia reacendeu, contudo, um debate mais amplo: a necessidade de revisitar e reescrever a história angolana a partir de uma perspectiva africana.
Especialistas recordam que, antes da chegada dos portugueses, já existiam no atual território angolano reinos estruturados e com forte organização política e cultural, como o Reino do Kongo, cuja capital Mbanza Kongo se destacava pela complexidade administrativa e religiosa. Também reinos como o Ndongo e o Matamba desempenharam papéis centrais na resistência à ocupação estrangeira.
Historiadores sublinham que a ideia de “500 anos de domínio colonial” é um mito que simplifica a realidade. Durante séculos, a presença portuguesa esteve restrita às zonas costeiras, enfrentando resistência persistente no interior. O controlo mais efetivo de Portugal só se consolidou entre as décadas de 1920 e 1960, após campanhas militares e forte repressão.
Figuras históricas como a Rainha Nzinga Mbandi simbolizam essa resistência, destacando-se pela liderança, diplomacia e estratégias militares contra a invasão colonial.
Académicos defendem que a narrativa histórica do país deve valorizar as fontes locais – oralidade, saberes tradicionais e estudos arqueológicos – e abandonar a visão eurocêntrica que reduziu a complexidade da história de Angola.
“Angola não nasceu da colonização, mas da força dos seus povos”, sustentam vários investigadores, acrescentando que recontar a história é uma forma de devolver dignidade e identidade às novas gerações.
Num momento em que o país se prepara para assinalar 50 anos de independência, o debate sobre a reconstrução historiográfica ganha força, apontando para a necessidade de reconhecer Angola como protagonista da sua própria trajetória, em vez de a reduzir a um prolongamento da história portuguesa.

