Luanda – O ex-primeiro-ministro de Angola, Marcolino Moco, levantou fortes críticas ao ambiente político nacional, acusando o Executivo de preparar o terreno legal para garantir a vitória do MPLA nas próximas eleições. Em entrevista à *DW África*, o antigo dirigente expressou receios de que o processo eleitoral esteja a ser manipulado com respaldo legislativo, classificando essa tendência como uma “fraude escandalosa”.
A polémica reacendeu-se após a promulgação, pelo Presidente João Lourenço, de alterações à Lei Orgânica sobre as Eleições Gerais, aprovadas apenas com os votos da bancada do MPLA. A decisão foi tomada apesar dos protestos da oposição, que considera as mudanças prejudiciais à transparência do processo eleitoral.
Para Marcolino Moco, o ambiente político atual é intencionalmente instável e manipulado. “Não temos uma liderança interessada em estabilizar o país. Há uma geração de líderes que acredita que governar é sinónimo de desestabilizar”, afirmou.
Segundo o antigo primeiro-ministro, mesmo faltando tempo considerável até às eleições, o país já vive uma escalada de tensão política que, na sua opinião, é alimentada diretamente pela postura do Presidente da República.
Moco acredita que a vitória do MPLA em 2022 foi e continua a ser assegurada através de mecanismos legais e institucionais, controlados por uma estrutura oculta que atua acima dos partidos. “O problema é um sistema que absorve quem chega ao poder. Chamo-lhe ‘ordem superior’. Foi esse sistema que orientou José Eduardo dos Santos e agora faz o mesmo com João Lourenço”, acusou.
O político é taxativo ao afirmar que, sem uma fraude, o MPLA não teria como vencer as próximas eleições. “A sociedade mudou. Os jovens são maioria e já não aceitam os mesmos argumentos do passado, como o discurso da guerra ou a desqualificação da UNITA”, destacou.
Marcolino Moco denunciou ainda que a estratégia para garantir a vitória do partido no poder passa por alterações legislativas que fragilizam o processo democrático. Apontou como exemplo a centralização da contagem dos votos, contrariando as práticas da região da África Austral, onde os votos são contados nas assembleias locais.
> “Não se faz a contagem no local. Os votos são transportados em aviões, o que levanta enormes suspeitas”, alertou.
Questionado sobre o risco de confrontos após as eleições, Moco reconheceu que há sempre essa possibilidade, mas minimizou a ideia de ânimos exaltados entre a população. “A exaltação é artificial. O que existe é uma tentativa de manter o país permanentemente instável”, afirmou.
O ex-chefe do Governo concluiu apelando à vigilância dos cidadãos e da comunidade internacional quanto ao processo eleitoral angolano, sublinhando que o país precisa de alternância e de instituições verdadeiramente democráticas.

