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Fugir da prisão de Caxias no carro de Salazar e casar em Peniche

Domingos Abrantes e Conceição Matos são figuras emblemáticas do Partido Comunista Português e a forma como resistiram à ditadura forjou essa reputação. Ele passou onze anos nas cadeias do regime e fugiu de Caxias num carro blindado de Salazar. Ela foi brutalmente torturada pela PIDE nas duas vezes em que esteve presa. Casaram na prisão de Peniche, chegaram a viver em Paris e regressaram depois do 25 de Abril de 1974 no “avião da liberdade” ao lado de Álvaro Cunhal.

Nos 50 anos do 25 de Abril, a RFI falou com vários resistentes ao Estado Novo. Neste programa, ouvimos Domingos Abrantes e Conceição Matos que, durante a ditadura, se empenharam na luta contra o fascismo e passaram “a vida a fugir à polícia ou à prisão”.

A conversa começa com o casamento, em 1969, na prisão do forte de Peniche. Nas fotografias da boda, já no exterior, não aparece o noivo porque o casal só se pôde reunir cinco anos depois.

À última hora teve que se arranjar um padrinho alternativo porque a polícia tinha rejeitado o último umas horas antes. Esteve quase a não haver casamento. Depois, o casamento, não é um casamento normal. Eu saí da cela e fui lá assinar o papel. “Sim, senhor. Aceito como mulher.” Pronto, acabou! Ali não houve boda, nem fotografias! As únicas fotografias que temos do casamento é cá fora, dos convidados. É uma fotografia de um casamento em que não está o noivo! Tivemos depois mais cinco anos à espera de nos vermos porque eu continuei preso.

Foi o casamento possível nos tempos da ditadura entre dois resistentes antifascistas e figuras emblemáticas do Partido Comunista Português. Mais de meio século depois, Conceição Matos, de 87 anos, e Domingos Abrantes, de 88, recebem-nos na sede do PCP, em Lisboa, onde continuam a ser referências da resistência. A prisão, o isolamento e a tortura fizeram parte das suas vidas no tempo do Estado Novo. Ela esteve presa duas vezes em Caxias: a primeira foi durante um ano e meio e a segunda foram dois meses. Ele esteve preso 11 anos, no total, entre o Aljube, Caxias e Peniche.

“Uma fuga nas barbas da polícia!”

Em 1961, Domingos Abrantes e sete militantes do Partido Comunista protagonizaram uma das mais memoráveis fugas das prisões do regime: a fuga de Caxias num “Chrysler Imperial à prova de bala” de Salazar.

Pronto, é uma história fílmica. Fugir num carro da cadeia, numa cadeia que está fechada, que tem portões. Essa fuga fica histórica. Foi a última fuga colectiva do fascismo. É uma fuga que tem uma carga política, feita a partir de uma cadeia privativa da PIDE, dirigida por um inspector da PIDE e utilizando um carro blindado do Salazar. Consta que o Salazar nunca mais quis pôr os pés no carro! O carro tinha ficado sujo de comunistas!

A fuga só foi possível graças à confiança que outro preso, António Tereso, mecânico, gozava junto dos guardas da cadeia, que julgavam tê-lo “rachado”. Foi ele quem propôs fugir no carro que estivera ao serviço de Salazar e cujo arranjo lhe tinha sido confiado.

Foi um camarada, podemos dizer um herói. Ele foi um artista completo, revelou uma qualidade fantástica. Tornou-se a pessoa de mais confiança, na cadeia, do director. Era a única pessoa que podia ir ao director sem pedir autorização. Os próprios guardas, quando queriam alguma coisa do director, pediam-lhe a ele. Portanto, está a ver o grau de confiança. Podia, sem limites, percorrer a cadeia, tal era a confiança que ganhou daqueles bandidos.

António Tereso, ao volante do carro blindado, atravessou de marcha-atrás o túnel que ligava o pátio principal, onde uma dezena de presos encenava um jogo de futebol durante o “recreio”. Quando o carro chegou ao pátio interior, os presos rodearam a viatura, entraram e arrancaram a grande velocidade pelo túnel, rebentando com o portão exterior. A fuga durou 60 segundos, mas demorou 19 meses a preparar, sublinha Domingos Abrantes.

“Nós não tínhamos acesso ao carro, o carro é que tinha que ir ter connosco e, portanto, o carro só podia ir ao sítio onde a gente ia!”, começa por explicar o famoso fugitivo, sublinhando que foi “uma fuga nas barbas da polícia”.

As fugas fazem-se às escondidas. Ou serram-se grades ou abrem-se buracos. Quando os carcereiros dão por ela, já os presos lá vão. Esta fuga tinha que ser nas barbas da polícia! Era à luz do dia, o que significava que os carcereiros iam assistir à fuga e eram guardas que tinham espingardas de guerra. Não eram pistolinhas! Esse foi o grande problema porque nós não íamos fugir para morrer! Nós íamos fugir para voltar à luta, não é? Esse problema da morte esteve sempre até ao último momento. Uma coisa sabíamos ao certo: eles iam assistir, desde o primeiro segundo, àquela fuga.

O sorriso de orgulho pela derrota simbólica que impôs ao regime ditatorial está presente ao longo de todo o relato. Domingos Abrantes recorda o episódio marcado por peripécias que mais parecem tiradas de um filme ou de um livro. Porém, a história aconteceu e é uma das fugas contadas no Museu do Aljube, Resistência e Liberdade, em Lisboa. Retomemos o relato…

Quando o carro chegou ao sítio onde nós estávamos, o carro nem sequer tinha espaço para dar a manobra, o carro tinha que entrar de marcha-atrás e sempre a trabalhar. O espaço que ficou entre nós e a guarda era tão pouco que o próprio guarda é que me empurrou para o carro! Estava habituado a ver o carro que o nosso camarada – que era camarada, mas que era para os guardas um PIDE – nem lhe passou pela cabeça que ele estava ali para a gente fugir!

O grupo de resistentes do PCP sabia que a fuga acabaria mesmo por “decorrer à luz do dia” e que iam “ser metralhados”, tanto é que “o carro foi atingido por 19 balas”. Ao fim de meses e meses de preparação, os oito concluíram que “a surpresa paralisava os guardas”, ou seja, o próprio insólito da situação: “Um carro, portões fechados e uns malucos que se metem!”. Domingos Abrantes ainda tem a sensação que “acharam que aquilo era uma brincadeira de mau gosto”, tanta foi “a displicência com que trataram os primeiros segundos”.

Depois, a outra grande questão era: o carro era ou não era blindado? Porque se não fosse o blindado, morríamos todos. É que eram armas de guerra! Não eram pistolas, eram armas de guerra, eram espingardas! Sobre isso, nós não sabíamos nada. Mas havia uma coisa que tínhamos uma enorme convicção: era que Salazar não andaria em carros que não fossem blindados. O seguro de vida do Salazar era o nosso! E também não nos enganámos! Mas era uma hipótese que só se confirmava no momento.

Por último, a grande questão era que o carro tinha que atravessar dois portões. O primeiro só abria às oito da manhã, por isso, a fuga teria de ser de manhã e num dia em que as famílias não viessem visitar os presos para não as colocar em perigo. Quanto ao segundo portão, como Domingos Abrantes foi julgado em tribunal militar dias antes, ele pôde observar que os guardas não enfiavam as cavilhas de ferro na sapata de cimento. Seria suficiente para o carro rebentar com o portão?

É fácil de ver que se o carro não rebentasse com o portão, nós éramos mortos todos! Todos! Porque já estavam a disparar e não iam deixar de disparar. Portanto, andámos muito tempo a observar o portão. Ainda por cima o carro teve que se meter para o interior da cadeia para fazer como os aviões e ganhar balanço! O carro era um monstro, o carro era quase um tanque! Um carro de 3.000 quilos ou coisa assim! Portanto, o carro apontou ao portão e a grande incógnita era: o que é que vai acontecer? É o momento decisivo. Ou o carro passa ou não passa. Se não passa, somos todos mortos. É o momento decisivo de toda a história, das nossas vidas. E repare que metade do portão ficou intacto, tal era a força do portão! Mas o carro passou, rebentou com a outra parte, vimos as madeiras no ar! O carro ficou todo amachucado à frente. A fuga durou 60 segundos. Foram precisos 19 meses para se chegar a 60 segundos. Mas aqueles 60 segundos parecem uma eternidade, os relógios ali parece que andam só para trás.

O carro era mesmo blindado e resistiu aos disparos em frente da cadeia e, para a história, ficou uma fuga que tem “o simbolismo político de ser um carro de Salazar” e que foi “uma enorme derrota para a polícia”.

Nós éramos os mais destacados dirigentes do partido, éramos funcionários, dirigentes, etc. E éramos oito. Em Peniche já tinham fugido dez. Portanto, foi uma enorme derrota para a polícia.

“Coragem hoje e abraços amanhã

Quatro anos depois, em 1965, Domingos Abrantes voltou a ser preso. Desta vez, também Conceição Matos o foi. A 21 de Abril, a PIDE arrombou-lhe a porta de casa e ela ainda teve tempo para queimar, à pressa, documentos, mas não na panela que habitualmente colocava junto à cama. Foi para a prisão de Caxias cerca de dois meses, em completo isolamento, “sem relógio, sem lápis, sem caneta, sem nada”. Ao fim de 17 dias, foi para interrogatório na sede da PIDE, na rua António Maria Cardoso, em Lisboa. Aquilo que viveu nos interrogatórios levou mesmo José Afonso a fazer uma canção em sua homenagem, “Na Rua António Maria” [em referência à sede da PIDE – a rua António Maria Cardoso].

Aparece-me o inspector Tinoco que diz: “Daqui não sai ninguém se não falar. Consigo vai ser a mesma coisa. Daqui só para a morgue ou para o Júlio de Matos.” – O Júlio de Matos era o manicómio. – “Enquanto aqui estiver, não vai à casa de banho e vai ter que fazer as necessidades no chão e vão ter que ser limpas com a sua própria roupa.” Realmente era assim. Havia uma secretária. De um lado estava a PIDE ou o PIDE e do outro lado estava eu. E então começam-me a fazer a tortura de sono e eu não ia à casa-de-banho.

Conceição Matos foi submetida à tortura do sono, espancada, proibida de ir à casa-de-banho, fotografada, humilhada e obrigada a estar despida em frente aos agentes da polícia política.

Ao fim de dois dias, comecei a ter alucinações, a ver bichos enormes nas cadeiras. Comecei a ouvir gritos que não sei se eram pessoas a serem torturadas ou se fazia parte das alucinações. Via as paredes a mexer, etc, etc. Até que chegou uma altura em que há uma PIDE que me estava a guardar e diz: “Vai fazer no chão, não quer ir à casa de banho? Basta falar. Eu tenho vergonha de ser mulher.” Eu digo assim: “Olhe, vergonha tinha eu de estar a fazer o seu papel.

Já na prisão de Caxias, começou a ouvir pancadas na parede e a perceber que correspondiam a letras. Então, também começou a bater até ser entendida e lhe terem “dito” algo que a ajudou e muito.

Perguntaram-me: “Quem és tu?” E eu disse quem era. “Onde é que foste presa?” Eu disse no Montijo. “Já foste à polícia?” Eu disse que sim. “Foste torturada?” E eu disse que sim. “Falaste?” E eu disse que não. “Então, força amiga, coragem hoje e abraços amanhã.”

No segundo interrogatório, conheceu “a PIDE Leninha”, a mais temida das agentes femininas.

Quando voltei outra vez, fiquei sozinha com a tal Leninha, que era a Madalena, que era uma víbora. Posso dizer mesmo que era das mulheres mais miseráveis. E uma outra. Então vem outra vez o interrogatório. Eu recusava-me a responder. Nem sequer lhes dizia nada. E ela começa a dizer: “Vamos começar o espectáculo”. Então começou-me a tirar uma peça de roupa de cada vez. Uma agarrava-me, despiram-me e ela começa-me aos murros e aos pontapés nas canelas, aos murros na cara, aos murros… Bom, foi uma coisa terrível que eu caía para o chão. Depois, elas levantavam-me, levantavam-me outra vez e continuavam aos murros e aos pontapés. E até que chegou uma altura, ao fim daquelas horas todas, ela diz: “Vamos embora que esta merda não fala e, se eu fico mais tempo, eu espatifo-a toda!

A violência física e verbal continuou, com o acréscimo de estar a ser agredida e fotografada ao mesmo tempo. A dada altura, gritou: “Canalhas! Façam o que quiserem, matem-me, acabem comigo, mas eu não vou dizer nada à polícia!”

Eu sei o que é estar enterrado vivo”

Domingos Abrantes foi preso horas depois da companheira. “O bom filho à casa volta” foi uma das “bocas foleiras” que ouviu dos mesmos guardas que anos antes assistiram estupefactos à sua fuga no carro de Salazar. Domingos Abrantes também não escapou aos interrogatórios e à tortura do sono no tristemente célebre terceiro andar da sede da PIDE na rua António Maria Cardoso.

Como é que se mantém uma pessoa sem dormir? Com pancadaria, com barulho, com caneladas, com murros na cabeça! Senão adormece! Mas a certa altura, já não é possível aguentar-se em pé, nem sentado, a gente senta-se, adormece, leva umas caneladas, cai para o chão.

Depois, a tortura do sono começou a ser acompanhada pela “estátua, que é um preso estar à Cristo, em pé, o que é uma coisa extremamente dolorosa”, acrescenta Domingos Abrantes.

As pernas tornam-se um trambolho. Sabe o que é um trambolho? As pernas atingem uma dimensão desmedida. Houve camaradas que não tiraram os sapatos e os sapatos tiveram que ser cortados à faca. Ainda tiveram, nos 60 anos do partido, umas meias minhas cheias de sangue. Rebenta a pele, a pele começa a estalar, começa a sair um soro que parece um autêntico ácido! A certa altura, está-se muito mais lá do que cá. Mas é curioso que a gente está grogue, mas sabe sempre onde está.

Domingos Abrantes nunca cedeu nos interrogatórios, nem ao fim de 15 dias de tortura do sono. A dada altura, ainda receou que lhe fossem buscar à cabeça aquilo que ele se recusava a falar. É que apareceu um homem, apresentado como “cientista e especialista na fisiologia do cérebro”, que lhe meteu um capacete descrito como “uma máquina comprada aos americanos que vai buscar ao cérebro o que você lá tem”.

Eles estavam a falar para uma pessoa que pode começar a interiorizar que vai mesmo morrer. É sempre de manhã à noite: “Tu vais morrer e vais morrer e vais morrer”! Portanto, estão-se a dirigir a uma pessoa que pode começar a interiorizar que vai morrer. Pode ter medo de morrer. Ele lá me explicava o que era o cérebro e tal. A primeira vez que me falaram nisso, achei aquilo quase uma anedota, mas depois comecei eu próprio a interiorizar que a máquina podia ver. E porquê? Porque não vou dizer nada a estes bandidos e os gajos vêm cá buscar aquilo que eu, pela tortura, não lhes dou!

Mas nem com “a máquina” e os choques eléctricos, os agentes da PIDE arrancaram informações a Domingos Abrantes.

Eu comecei a sentir choques no pescoço, na cabeça, na testa, por todo o lado, mas não saía nada. E eles a olharem para mim para verem qual era a reacção. Aí, a certa altura, viram que eu me mantinha imperturbável e o cientista disse: “Há aqui uma avaria na máquina. Levem-no para baixo que a gente vai consertar a máquina”. Mal me levaram, outra vez, o mesmo ritual. Ainda me perguntaram: “Quer falar? Não quer falar?

Os choques é uma coisa dolorosa. Ele liga a máquina. Os choques. E zero! Não saía nada! E eu, que estava mais que grogue, tive a consciência que não havia máquina e que aquilo era uma encenação. Eu, a cambalear e eles a segurarem-me que eu não me aguentava na cadeira, abri os braços à Cristo e disse: “Como vocês vêem, isto não treme. Eu não vos vou dizer nada!” Mas disse mais qualquer coisa: “Vocês têm máquina, mas é merda!” Deram uma gargalhada! É que é uma cena quase surrealista. Um indivíduo está ali quase a morrer no meio destas encenações! Eu hoje rio-me, mas não dá para rir naquele momento.

Depois dos interrogatórios e dos intermináveis dias de tortura do sono, Domingos Abrantes foi levado para a prisão de Caxias, onde o colocaram numa cela a que chamavam “segredo”. Ali não chegava nem luz nem som. “Um buraco”, como se tivesse sido “enterrado vivo”.

Cheguei a Caxias. Tinha outra vez o “staff” à minha espera. Aquelas bocas foleiras, “o bom filho a casa volta”… Bem, mas eu tinha fugido de Caxias. Além dos crimes de actividade política, tipografia, já tinha mais um crime que era ter fugido num carro do Estado. Então, meteram-me dez dias num buraco. Eu sei o que é estar enterrado vivo porque aquilo é um buraco sem luz e sem som. Eu para ir à casa de banho, que era um buraco no chão, ia às apalpadelas. Ia a pôr as mãos na parede. Dormia no chão, no cimento, e ali estive dez dias. E, curiosamente, quando ia a entrar, o guarda disse “Você não pode cantar!”. O que é que se pode dizer a um indivíduo que vai ser metido num buraco? Que ele não pode cantar? Como ele disse que eu não podia cantar, eu tinha que cantar! Passava o dia a cantar a “Internacional” para chatear o guarda. Até que desistiram. Ali estive dez dias e, depois, mais um mês de isolamento. Só tomei banho ao fim de 27 dias.

Domingos Abrantes foi, depois, levado para a prisão de Peniche e de lá só saiu ao fim de oito anos, em Março de 1973. Conceição Matos ficou em prisão preventiva um ano e meio, acusada de desenvolver actividades contra a segurança nacional, e voltaria a ser presa em 1968. Regressou a Caxias e ali ficou, em total isolamento, durante dois meses. Praticamente nada tinha mudado e a tortura voltou.

Fui para interrogatório e fui para a mesma sala do tal terceiro andar onde tinha estado na tortura. Aparece-me o inspector Mortágua e diz-me: “Olhe, eu não a conheço de lado nenhum.” (…) Nessa altura eu falei: “Olhe, então quero dizer o seguinte: eu não passo aqui pela primeira vez e foi aqui, nesta sala, que me deram cabo da saúde. E agora, tal como da outra vez, podem fazer o que quiserem, podem-me matar, podem-me cortar aos bocados, que eu não digo nada à polícia. Fixem isto, Eu não digo nada.” O indivíduo sai, vai lá fora, não foram segundos. Entra-me imediatamente com o Tinoco. “Trago-lhe aqui o homem que lhe deu cabo da saúde”. Vem o Tinoco e diz: “Está cá outra vez. Então não é a minha presa? Olhe, é assim: tenho muita honra, muito orgulho em lhe ter dado cabo da saúde! Só não fiz o que prometi: foi ter-lhe dado cabo da vida! Se um dia voltar a ser minha presa, pode crer que não sai daqui com vida.

Domingos Abrantes recorda que “a função da polícia era destruir a luta organizada” porque “o fascismo só podia ser derrubado pela luta”, mas as pessoas “eram capazes de arriscar tudo para melhorar a sua vida e a dos outros”. E sublinha:

A nossa passagem pela polícia não é só um momento de sofrimento. É uma coisa que nunca mais se esquece na vida: olhar para aqueles fulanos e ver que eles são pequeninos. Podem torturar, matar – e mataram. Nós tivemos a felicidade de sair de lá com vida, mas houve outros que não saíram. Aquilo que eles querem, a gente não lhes dá. Quando eles começam com: “Não és comunista, não és nada! Comunista de merda, és um fanático” é porque já estão derrotados, já se deram por vencidos. Isso é uma alegria que nos acompanha até ao fim da vida.

Quando saiu em liberdade, Conceição Matos continuou o seu trabalho, no âmbito do PCP, junto da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. O marido saiu da prisão cinco anos depois, em 1973, e ambos regressaram ao trabalho clandestino no partido, desta vez em Paris. No 25 de Abril de 1974, estavam no exílio e acabaram por deixar Paris rumo a Lisboa no chamado “Avião da Liberdade”, ao lado do líder do PCP, Álvaro Cunhal, e de muitos outros portugueses exilados.

É um avião de refugiados- comunistas e outros não – músicos, cantores célebres, cientistas que trabalhavam até na Sorbonne. Portanto, o avião da Air France, carregado de “malandros” que regressavam a Portugal! Nós tivemos a felicidade de ser escolhidos para acompanhar o Álvaro. Portanto, viemos os três no avião. Aquilo era uma alegria imensa.