Para muitos, o Festival Eurovisão da Canção acontece apenas em maio. Para os chamados “eurofãs”, no entanto, a temporada começa meses antes — e envolve maratonas televisivas, análises ao detalhe e uma comunidade que se descreve como família.
“Para nós, a Eurovisão começa em setembro”, conta João Vargas, fã assumido do concurso. É nessa altura que começam a ser reveladas as primeiras canções candidatas. A partir de dezembro, arrancam as finais nacionais — como o Festival da Canção, o Melodifestivalen, na Suécia, ou o Benidorm Fest, em Espanha — que escolhem os representantes de cada país.
Entre dezembro e maio, há fins de semana preenchidos com transmissões simultâneas. “Chegamos a ter cinco ou seis ecrãs divididos para acompanhar tudo”, explica Francisco Rodrigues. Rankings, previsões de votação, análises vocais e comparações estatísticas fazem parte da rotina de quem vive intensamente o concurso.
Além de espectadores atentos, muitos eurofãs tornaram-se criadores de conteúdos nas redes sociais, onde partilham reações, críticas e opiniões. Helena Almeida descreve o fenómeno como algo espontâneo: “Começámos a conversar sem perceber que estávamos a criar uma comunidade. Hoje há um verdadeiro sentimento de pertença.”
A experiência, dizem, vai muito além da música. Para Jorge Durões, que acompanha o festival desde os anos 90, a Eurovisão representa um espaço seguro e agregador. Recorda a vitória de Dana International em 1998 como um momento transformador: “Abriu horizontes e fez-me sentir que havia ali lugar para todos.”
Também Fábio Alexandre associa o festival a memórias familiares. Lembra-se de assistir à transmissão com os avós e do choque geracional em 2006, quando a banda finlandesa Lordi venceu o concurso com uma estética inesperada. “Eu adorei, o meu avô detestou. Mas era isso que tornava tudo especial.”
Em Portugal, há um antes e um depois de 2017. A vitória de Salvador Sobral, com “Amar pelos Dois”, deu ao país o primeiro triunfo na história do concurso e estabeleceu um recorde de 758 pontos no atual sistema de votação
“Cresci a ouvir que Portugal nunca iria ganhar. E aconteceu”, recorda Helena. A conquista, interpretada em português e com uma balada intimista, contrariou expectativas num festival muitas vezes associado a produções grandiosas. Para os fãs, abriu portas a propostas mais autênticas e menos dependentes de efeitos visuais.
O triunfo permitiu ainda que Portugal organizasse a edição seguinte, em Lisboa. Para muitos, foi a primeira oportunidade de assistir ao espetáculo ao vivo — um momento descrito como a concretização de um sonho.

## “Família Eurovisão”: fãs vivem o festival como casa em ano marcado por polémica




Para muitos, o Festival Eurovisão da Canção acontece apenas em maio. Para os chamados “eurofãs”, no entanto, a temporada começa meses antes — e envolve maratonas televisivas, análises ao detalhe e uma comunidade que se descreve como família.
“Para nós, a Eurovisão começa em setembro”, conta João Vargas, fã assumido do concurso. É nessa altura que começam a ser reveladas as primeiras canções candidatas. A partir de dezembro, arrancam as finais nacionais — como o Festival da Canção, o Melodifestivalen, na Suécia, ou o Benidorm Fest, em Espanha — que escolhem os representantes de cada país.
Entre dezembro e maio, há fins de semana preenchidos com transmissões simultâneas. “Chegamos a ter cinco ou seis ecrãs divididos para acompanhar tudo”, explica Francisco Rodrigues. Rankings, previsões de votação, análises vocais e comparações estatísticas fazem parte da rotina de quem vive intensamente o concurso.
### Uma comunidade que nasceu online
Além de espectadores atentos, muitos eurofãs tornaram-se criadores de conteúdos nas redes sociais, onde partilham reações, críticas e opiniões. Helena Almeida descreve o fenómeno como algo espontâneo: “Começámos a conversar sem perceber que estávamos a criar uma comunidade. Hoje há um verdadeiro sentimento de pertença.”
A experiência, dizem, vai muito além da música. Para Jorge Durões, que acompanha o festival desde os anos 90, a Eurovisão representa um espaço seguro e agregador. Recorda a vitória de Dana International em 1998 como um momento transformador: “Abriu horizontes e fez-me sentir que havia ali lugar para todos.”
Também Fábio Alexandre associa o festival a memórias familiares. Lembra-se de assistir à transmissão com os avós e do choque geracional em 2006, quando a banda finlandesa Lordi venceu o concurso com uma estética inesperada. “Eu adorei, o meu avô detestou. Mas era isso que tornava tudo especial.”
### A vitória que mudou Portugal




Em Portugal, há um antes e um depois de 2017. A vitória de Salvador Sobral, com “Amar pelos Dois”, deu ao país o primeiro triunfo na história do concurso e estabeleceu um recorde de 758 pontos no atual sistema de votação.
“Cresci a ouvir que Portugal nunca iria ganhar. E aconteceu”, recorda Helena. A conquista, interpretada em português e com uma balada intimista, contrariou expectativas num festival muitas vezes associado a produções grandiosas. Para os fãs, abriu portas a propostas mais autênticas e menos dependentes de efeitos visuais.
O triunfo permitiu ainda que Portugal organizasse a edição seguinte, em Lisboa. Para muitos, foi a primeira oportunidade de assistir ao espetáculo ao vivo — um momento descrito como a concretização de um sonho.
### Polémica e incerteza em 2026
A edição deste ano, marcada para Viena, decorre num contexto de tensão. A União Europeia de Radiodifusão (EBU) decidiu manter Israel em competição, defendendo que o evento é disputado entre emissoras públicas e não entre governos. A decisão gerou críticas e levou alguns países a anunciar a não participação.
Em Portugal, a Rádio e Televisão de Portugal (RTP) confirmou presença, apesar de vários concorrentes do Festival da Canção terem manifestado intenção de não representar o país em caso de vitória na final nacional.
Entre os fãs, o ambiente é de divisão e apreensão. “Nota-se algum desinteresse, mesmo que inconsciente”, admite Jorge Durões. Outros sublinham que a política sempre esteve presente, mesmo num concurso que se apresenta como apolítico.
Apesar das divergências, permanece a convicção de que o festival saberá adaptar-se. Ao longo de sete décadas, o concurso enfrentou boicotes, polémicas e mudanças de regras — e continuou a crescer. No ano passado, a final registou 166 milhões de espectadores em 37 mercados, segundo dados divulgados pela EBU.
Para os eurofãs, independentemente das controvérsias, a essência mantém-se: “A Eurovisão é casa”, resume Jorge. Um espaço onde diferenças se encontram ao som da música — e onde, todos os anos, a contagem decrescente começa muito antes da primeira semifinal.
Em Portugal, a Rádio e Televisão de Portugal (RTP) confirmou presença, apesar de vários concorrentes do Festival da Canção terem manifestado intenção de não representar o país em caso de vitória na final nacional.
Entre os fãs, o ambiente é de divisão e apreensão. “Nota-se algum desinteresse, mesmo que inconsciente”, admite Jorge Durões. Outros sublinham que a política sempre esteve presente, mesmo num concurso que se apresenta como apolítico.
Apesar das divergências, permanece a convicção de que o festival saberá adaptar-se. Ao longo de sete décadas, o concurso enfrentou boicotes, polémicas e mudanças de regras — e continuou a crescer. No ano passado, a final registou 166 milhões de espectadores em 37 mercados, segundo dados divulgados pela EBU.
Para os eurofãs, independentemente das controvérsias, a essência mantém-se: “A Eurovisão é casa”, resume Jorge. Um espaço onde diferenças se encontram ao som da música — e onde, todos os anos, a contagem decrescente começa muito antes da primeira semifinal.

