Maputo – Novas denúncias vindas de círculos empresariais e institucionais indicam que várias entidades-chave do Estado moçambicano estariam a sofrer pressões e interferências que comprometem a sua autonomia e funcionamento normal, num contexto marcado pela crescente influência de intermediários informais com alegado acesso privilegiado ao poder político.
Segundo relatos recolhidos, o Gabinete de Informação Financeira (GIFIM), órgão responsável por monitorar fluxos financeiros suspeitos e prevenir crimes como branqueamento de capitais, não escaparia a este cenário. Fontes internas afirmam que investigações sensíveis não avançam, processos são travados e a autonomia operacional estaria condicionada por interferências externas, alegadamente ligadas a interesses privados. Há mesmo quem sustente que determinados dossiês se tornaram intocáveis.
As críticas estendem-se ao sector financeiro. Observadores questionam a actuação do Banco de Moçambique, acusando-o de demonstrar firmeza apenas no discurso, sem resultados práticos visíveis. Um dos exemplos citados é o caso do Banco Sólido, sobre o qual se questiona a inexistência de relatórios públicos detalhados, bem como a realização de auditorias aprofundadas à origem dos fundos, à carteira de clientes e ao perfil dos seus administradores e accionistas.
No domínio da segurança do Estado, os Serviços de Informação e Segurança do Estado (SISE) são descritos como incapazes de alertar eficazmente o Presidente da República, Daniel Chapo, para riscos reputacionais associados a determinados grupos empresariais estrangeiros. As fontes indicam que a influência de intermediários sobre sectores estratégicos da segurança estaria a limitar a capacidade de prevenção e aconselhamento institucional.
Um dos episódios citados envolve o lançamento do projecto de construção de seis mil habitações na Cidade Jovem, no âmbito dos primeiros 100 dias de governação, atribuído à empresa Fenix International Group. Apesar de comunicações oficiais indicarem que o próprio governo estrangeiro ligado à empresa se terá distanciado formalmente do projecto, o Presidente acabou por ser exposto publicamente ao lado de um parceiro cuja credibilidade internacional é contestada, levantando dúvidas sobre os mecanismos de verificação e aconselhamento existentes.
Fontes avançam ainda que o empresário associado ao projecto terá alegadamente oferecido cerca de cinco milhões de dólares norte-americanos em numerário durante o período eleitoral, uma informação que, embora não confirmada oficialmente, reforça as preocupações sobre financiamento político e influência indevida. Outros casos semelhantes são mencionados, como o de um empresário estrangeiro com um jato privado permanentemente estacionado no aeroporto nacional, cujo perfil empresarial e contributo fiscal são alvo de questionamentos.
De acordo com empresários ouvidos, novos investidores seriam abordados por intermediários que se apresentam como verdadeiros decisores do país. O discurso, segundo os testemunhos, seria directo: os interessados indicam o que pretendem explorar e em que condições, enquanto os intermediários garantiriam o “acesso” às autorizações necessárias, mediante contrapartidas financeiras significativas. Há mesmo referências à promessa de facilitação de incentivos fiscais, apresentados como projectos especiais ligados à Presidência da República.
Este clima tem afectado também empresários nacionais com longa presença no país, tradicionalmente próximos do partido no poder. Relatos indicam que, em menos de um ano, passaram de parceiros estratégicos a alvos de pressões e ameaças de afastamento do mercado. Alguns afirmam ser convocados para reuniões na capital sob escolta de segurança, onde lhes seriam impostas regras e transmitida a mensagem de que quem não se alinhar será substituído.
Segundo as denúncias, decisões sobre processos em curso na Procuradoria-Geral da República e na Autoridade Tributária seriam discutidas fora dos canais institucionais, reforçando a perceção de que o poder informal se sobrepõe à lei. As alegadas reuniões tardias com o Chefe de Estado são interpretadas como demonstrações de proximidade e influência, alimentando a narrativa de controlo do acesso ao Presidente.
Riscos para o Estado e a economia
Analistas alertam que este padrão de actuação expõe o Presidente a riscos reputacionais, fragiliza a credibilidade das instituições e afasta investidores sérios. A economia formal perde espaço, enquanto redes paralelas ganham força, criando um ambiente de incerteza e desconfiança.
A ascensão de figuras com poder informal e imunidade tácita levanta questões profundas sobre o modelo de governação, a separação de poderes e a integridade do Estado. Para observadores, o que emerge não é apenas um conjunto de casos isolados, mas sinais de uma possível captura sistémica das instituições.
Face à gravidade das denúncias, cresce a pressão para que as autoridades competentes investiguem os factos, esclareçam responsabilidades e reforcem os mecanismos de transparência e escrutínio público. Para muitos, está em causa não apenas a imagem do actual Governo, mas o futuro institucional, económico e reputacional de Moçambique.

