O especialista António Costa Silva defende que Angola tem condições para se transformar num “epicentro africano” de matérias-primas estratégicas, aproveitando a sua localização geográfica e os vastos recursos naturais. O país partilha fronteiras com a Zâmbia um dos maiores produtores de cobre do mundo e com a República Democrática do Congo, reconhecida pela produção de cobalto, dois elementos essenciais para a transição energética global.
Segundo o economista, Angola possui 31 das 56 matérias-primas consideradas estratégicas para o desenvolvimento da economia mundial, entre as quais o cobalto, o cobre, o nióbio e as terras raras. Um dos exemplos mais promissores é o projeto de Longonjo, próximo do Huambo, onde está prestes a ser inaugurada a primeira mina de terras raras do país, com investimento britânico e uma produção estimada em 2,5% da oferta mundial.
Costa Silva defende, contudo, que Angola deve evitar repetir o modelo “puramente extrativo” do passado, em que as matérias-primas eram exportadas sem benefício real para a economia nacional. “O país precisa de criar toda a cadeia de valor — desde a extração e refinação até ao fabrico de produtos finais, como baterias e carros elétricos. Angola pode tornar-se a ‘China de África’ se apostar neste modelo industrial”, sustentou.
O autor destaca ainda que o futuro económico do país depende da sua juventude, uma população extremamente jovem 70% dos angolanos têm menos de 20 anos mas fortemente afetada pelo desemprego. “A taxa geral de desemprego é de 32%, mas entre os jovens chega a 60%. Em cada três jovens, dois estão sem trabalho”, alertou.
Apesar dos desafios, há sinais de esperança. Durante uma visita ao Huambo, Costa Silva destacou o projeto Viemba, que está a instalar as primeiras fábricas de medicamentos de Angola, localizadas na estrada entre Huambo e Caála. A iniciativa, cujo nome significa “medicamento” em umbundu, vai produzir paracetamol e fármacos contra a malária, contando com o envolvimento de estudantes formados localmente.
Dos 2.000 candidatos recrutados entre jovens das escolas do Huambo, uma avaliação internacional identificou 10 talentos considerados “génios”, um exemplo do potencial humano que o país pode desenvolver se investir seriamente na educação e na formação técnica.
Para o economista, o futuro de Angola dependerá da capacidade de construir um pacto nacional entre as forças políticas e sociais, capaz de garantir compromissos duradouros em áreas como a educação, a saúde e a diversificação económica.
“Angola está numa encruzilhada: ou se reinventa, ou enfrentará tempos difíceis. Mas acredito que o país tem tudo para ser mais magnífico do que miserável”, afirmou Costa Silva, citando o livro Angola: Magnífica e Miserável, do académico português Ricardo Soares de Oliveira.
A reflexão integra a nova obra de António Costa Silva, intitulada “Angola aos Despedaços 50 anos depois, que futuro?”, título da obra literária que será apresentado esta terça-feira no Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

