Luanda – O jornalista e ativista Rafael Marques de Morais publicou um ensaio em que faz uma crítica profunda ao sistema político angolano, apontando a centralização do poder presidencial como a raiz das fragilidades do país.
No texto, intitulado “Quem Quer Ser Presidente”, Marques considera que, desde a independência, Angola permanece refém de uma polarização “estéril”: de um lado, o MPLA, no poder, acusado de perpetuar práticas de corrupção, repressão e exclusão; do outro, a UNITA, que, segundo o autor, limita-se a explorar o descontentamento popular, sem apresentar alternativas mobilizadoras.
O jornalista destaca três pilares fundamentais para a inclusão social – educação, saúde e emprego – que, em sua visão, continuam a ser negados à maioria da população. Mais de três milhões de crianças continuam sem acesso à escola primária, os hospitais carecem de meios básicos e a juventude enfrenta altos níveis de desemprego ou precariedade no setor informal.
Marques defende que o modelo de presidência instituído pela Constituição de 2010 criou um cargo “impossível”, que transforma qualquer chefe de Estado em refém do próprio poder absoluto. Tanto José Eduardo dos Santos como João Lourenço, afirma, sucumbiram a essa lógica, perpetuando práticas de governação centradas na figura do Presidente.
Segundo o autor, o fim do ciclo do petróleo, em meados da década de 2010, alterou a dependência do Estado, que hoje se sustenta sobretudo nos impostos pagos pelos cidadãos. No entanto, acusa, esses recursos continuam a ser geridos como património pessoal, através de decretos presidenciais que autorizam contratos bilionários sem concursos públicos nem transparência.
Para Rafael Marques, a questão central não é quem ocupará a Presidência, mas sim quem terá coragem de reformar o sistema político, descentralizar o poder e fortalecer a fiscalização da Assembleia Nacional e da Justiça.
Defende ainda que um futuro presidente deve assumir compromissos claros e mensuráveis nos setores de educação, saúde e emprego, sujeitando-se à prestação de contas públicas. Para além das mudanças institucionais, advoga também por uma transformação cultural: substituir a lógica da exclusão pelo respeito à diferença e pelo cultivo da cooperação e confiança mútua.
“Angola não precisa de administradores da fadiga, mas de arquitetos do bem comum”, escreve. Para o ativista, ser presidente deve significar conduzir uma transição histórica que devolva à população os dividendos da independência e da paz, até agora negados.
No encerramento, lança a pergunta que dá título ao ensaio: “Quem quer ser presidente?”, entendida não apenas como a ambição de ocupar o cargo, mas como o desafio de liderar o país rumo à superação da corrupção, da mediocridade e do autoritarismo.

