No Huambo, estudantes do ensino especial continuam a viver uma realidade de abandono. Apesar dos discursos sobre inclusão e igualdade, a verdade é que as escolas de ensino especial não têm sequer um orçamento próprio definido pelo Ministério da Educação.
Como é possível, senhora Ministra da Educação, Luísa Grilo, e senhor Diretor Provincial, Mário Rodrigues, que em pleno século XXI ainda se ignorem os direitos de crianças cegas, surdas e mudas? A exclusão não é apenas uma falha administrativa: é uma violação dos direitos humanos básicos.
A situação é dramática. Uma simples folha de braille, necessária para anotações, custa 150 kwanzas. Para apenas três aulas, um estudante precisa de 12 folhas. Num mês, isso pode representar valores insustentáveis para famílias que já vivem em situação de vulnerabilidade. E, para agravar, essas folhas nem sequer são vendidas no Huambo, o que obriga a improvisos e adaptações precárias.
A pergunta é inevitável: onde está a inclusão?
Discursos parlamentares e promessas de campanha não enchem cadernos, não escrevem em braille e não traduzem o silêncio de quem não ouve. A inclusão não pode continuar a ser apenas um slogan, precisa ser uma política pública com orçamento, prioridade e ação.
Aqui, a sociedade civil e as igrejas dão um exemplo que o governo deveria seguir. A Convenção Baptista de Angola (CBA) tem sido pioneira no trabalho com surdos e mudos, chegando a criar ministérios específicos para esta comunidade. A Primeira Igreja Baptista do Huambo oferece aulas gratuitas de língua gestual, e outras denominações, como Adventistas e IECA, já contam com intérpretes nos seus templos. A CBA, no entanto, transformou esta missão em doutrina, mostrando que a inclusão é possível quando há vontade.
Se a igreja Baptista consegue ordenar até um pastor mudo, por que o Estado não pode garantir professores, materiais e escolas devidamente orçamentadas? Será que precisamos de ver um governante surdo ou mudo para que finalmente se entenda o que é viver em silêncio e esquecimento?
Ao governo, fica o apelo: orçamentem as escolas especiais. A educação inclusiva não é um luxo, é um direito. E governar, acima de tudo, deve ser um acto de amor e justiça.
in Poeta Ukwanana|Defensor dos Direitos Humanos|Estudante do Curso de Ciências da Comunicação

