Cabinda – Centenas de empresas na província de Cabinda enfrentam sérias dificuldades financeiras devido ao não pagamento de dívidas acumuladas pelo Estado angolano. Os empresários afetados denunciam a situação como insustentável e apelam ao Governo por uma solução urgente.
A crise atinge empresas que prestaram diversos serviços ao Governo Provincial, muitos dos quais com recursos próprios, mas que, anos depois, continuam sem receber os valores devidos. Segundo dados avançados por uma comissão de empresários locais, o total das dívidas do Estado ascende a cerca de 74 mil milhões de kwanzas, equivalentes a aproximadamente 7 milhões de dólares norte-americanos.
Rogério Massiala, empresário local, é um dos muitos que se dizem próximos de declarar falência. “O Governo pediu-nos para reabilitar vias terciárias. Fizemos as obras com fundos próprios e agora ninguém nos paga. Já recorremos ao Governo por todas as vias, sem sucesso”, lamentou, apontando uma dívida de 188 milhões de kwanzas.
João Piula, proprietário de uma empresa de construção civil, relatou ter construído uma ponte avaliada em 243 mil dólares, mas continua sem receber. “Como posso viver? Como é que o meu pessoal vai viver?”, questiona, diante do silêncio das autoridades.
Diante da ausência de respostas concretas, os empresários organizaram-se e dirigiram uma carta ao Governo Provincial, exigindo documentos que reconheçam oficialmente as dívidas. “Infelizmente, não temos garantias. A situação está a criar constrangimentos nas famílias destes empresários, muitos dos quais estão prestes a encerrar os seus negócios”, afirmou Belchior Tati, porta-voz da comissão empresarial.
Segundo Tati, a persistência do problema coloca em risco a economia local e o sustento de inúmeras famílias, principalmente num contexto de crescente instabilidade social e económica.
Uma fonte do Governo Provincial, sob anonimato, revelou que a equipa técnica responsável pela análise e certificação de dívidas recebeu 353 processos de reclamações. Desses, 221 já foram validados, 46 aguardam confirmação, 66 estão sob análise da Inspeção Geral da Administração do Estado (IGAE) e 21 foram rejeitados por incumprimento de requisitos legais.
Apesar deste reconhecimento parcial, não há ainda previsão para o início do pagamento das dívidas, o que continua a gerar frustração entre os empresários.
A crise em Cabinda expõe mais uma vez as fragilidades da gestão pública e o impacto devastador do atraso nos compromissos financeiros do Estado sobre o tecido empresarial nacional.

