A Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) exigiu a libertação de todos os presos políticos na Guiné-Bissau e apelou à rápida formação de um governo inclusivo, na sequência de uma missão de alto nível realizada em Bissau no último fim de semana.
A delegação reuniu-se durante mais de cinco horas com as autoridades de transição guineenses, num encontro marcado por momentos de interrupção para consultas internas. No final da visita, a organização aguarda a divulgação de um comunicado oficial que deverá reafirmar as decisões tomadas na última cimeira dos chefes de Estado e de Governo da CEDEAO, realizada em dezembro de 2025.
Entre as principais exigências consta a libertação imediata dos detidos por motivos políticos. Antes de deixar o país, a missão visitou Domingos Simões Pereira, líder do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), que se encontra detido há mais de 40 dias sem acusação formal, bem como o candidato presidencial Fernando Dias, refugiado na Embaixada da Nigéria em Bissau.
Em declarações à imprensa, o sociólogo guineense Tamilton Teixeira defendeu uma posição mais firme da organização regional, alertando para possíveis consequências caso a situação se agrave. Segundo o analista, a CEDEAO dispõe de mecanismos de pressão previstos nos seus próprios estatutos, mas corre o risco de ser responsabilizada se a instabilidade política evoluir para um cenário mais grave.
A missão foi liderada pelo presidente em exercício da CEDEAO, Julius Maada Bio, chefe de Estado da Serra Leoa, que contou com a presença do presidente do Senegal, Bassirou Diomaye Faye, além do presidente da Comissão da CEDEAO, Omar Aliou Touray, e do presidente do Conselho de Ministros da organização, Aladji Moussa Kaba.
Do lado guineense, participaram no encontro o líder da transição, Horta Inta-a, o chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, Tomas Djassi, o primeiro-ministro de Transição, Ilídio Vieira Té, e o ministro dos Negócios Estrangeiros de Transição, João Bernardo Vieira, entre outros responsáveis militares e políticos.
Numa publicação nas redes sociais, Julius Maada Bio considerou as discussões “construtivas” e reiterou o apelo a uma transição curta, sublinhando a necessidade de um governo representativo das diferentes forças políticas e da diversidade social da Guiné-Bissau.
Apesar disso, analistas locais criticam a atuação da CEDEAO, considerando que a organização demorou a intervir de forma decisiva. Para Tamilton Teixeira, uma posição mais clara e firme poderia servir de exemplo e prevenir crises semelhantes na sub-região.
Após a reunião, a delegação deslocou-se ao Ministério do Interior para visitar Domingos Simões Pereira e, posteriormente, encontrou-se com Fernando Dias. Segundo advogados do líder do PAIGC, continuam sem acesso regular ao seu cliente, embora garantam que este se encontra em boas condições físicas e psicológicas.
A família de Simões Pereira apelou à CEDEAO para uma intervenção urgente, defendendo que a sua detenção prolongada sem acusação formal constitui uma violação grave dos princípios democráticos e do Estado de direito na Guiné-Bissau.

