O prolongado silêncio da CEDEAO após a cimeira de Abuja está a alimentar incerteza e preocupação na Guiné-Bissau, onde a crise política continua sem sinais de resolução. Apesar das decisões anunciadas — nomeadamente a libertação imediata de presos políticos e o envio de uma missão ao país — nada avançou nas últimas semanas. Pelo contrário: a delegação prevista foi adiada duas vezes e, segundo o governo de transição, a sua deslocação poderá mesmo não acontecer.
A oposição reagiu num comunicado em que acusa o Alto Comando Militar de manipular o processo, ganhar tempo e utilizar a detenção do líder opositor Domingos Simões Pereira como instrumento de pressão, sustentando-se numa narrativa judicial que considera “fabricada”.
Em entrevista à DW, o sociólogo e professor universitário Armando Correia criticou abertamente a atuação da CEDEAO, sublinhando que a organização regional revela “incoerência”, falta de transparência e incapacidade de intervir numa crise que ameaça deteriorar-se rapidamente.
“O silêncio ensurdecedor da CEDEAO mostra que a organização perdeu controlo sobre a agenda de resolução de conflitos na região”, afirmou. “Os adiamentos sucessivos da missão a Bissau e a visita isolada de uma delegação senegalesa expõem o descompasso interno da instituição.”
Para Armando Correia, a postura da CEDEAO transmite ao comando militar guineense um sinal preocupante: a ideia de que qualquer grupo das Forças Armadas pode assumir o poder sem enfrentar consequências reais.
“A Guiné-Bissau já tem um historial de ruturas institucionais. A falta de resposta clara das autoridades regionais faz parecer que golpes podem ocorrer sem custos políticos ou pessoais”, disse.
O académico acrescenta que eventuais sanções também deixaram de surtir efeito. “As autoridades de transição já demonstraram que não temem sanções, sobretudo porque estas raramente têm impacto concreto sobre quem detém o poder.”
Questionado sobre o que poderá acontecer caso a CEDEAO não avance com a missão prometida, Correia foi direto: “O país arrisca-se a mergulhar num estado de caos político, social e económico em 2026.”
Segundo o analista, a Guiné-Bissau tornou-se um espaço de interesses concorrentes na região e além dela, enquanto organizações internacionais permanecem inativas ou divididas quanto à forma de intervir.

