Luanda – O analista político Kamalata Numa considerou que a ignorância no exercício da política representa um sério perigo para a sociedade, sobretudo quando associada à arrogância e à falta de sentido ético. Num texto divulgado este sábado, o autor sustenta que a ausência de leitura correta da realidade nacional tem conduzido a práticas que fragilizam o Estado de Direito e distanciam o poder político da vontade popular.
Segundo Kamalata Numa, muitos dirigentes reclamam formação académica em áreas como filosofia, história ou direito, mas revelam incapacidade de compreender o contexto social e histórico do país. Essa lacuna, afirma, tem aberto espaço a comportamentos que descreve como “aventurismo político”, sustentados por leis que considera inconstitucionais e orientadas para a manutenção de privilégios.
O autor entende que Angola atravessa um momento crítico da sua história política, social e moral, que exige maturidade e responsabilidade dos principais atores políticos. Nesse sentido, defende um encontro entre o Presidente da República, João Lourenço, e o líder da UNITA, Adalberto Costa Júnior, com o objetivo de negociar um Pacto de Transição Política Responsável. Para Kamalata Numa, tal iniciativa não deve ser vista como cedência política, mas como uma resposta necessária à gravidade da situação nacional.
No texto, o analista critica a atual estratégia do MPLA, que considera desajustada aos desafios contemporâneos. Aponta práticas de mobilização política ultrapassadas, a dependência de apoiantes incondicionais e a utilização de mecanismos de divisão interna da oposição como sinais de esgotamento político. Cita ainda análises que alertam para a instrumentalização de projetos políticos com o objetivo de fragmentar as forças democráticas.
Kamalata Numa lamenta igualmente o que classifica como estigmatização regional e étnica, alertando que tais práticas comprometem a coesão nacional e aprofundam a exclusão social. Para o autor, nenhum projeto de nação pode prosperar assente na desconfiança e na marginalização de parte dos seus cidadãos.
O texto traça ainda um retrato severo da realidade social angolana, destacando fragilidades estruturais nos setores da educação e da saúde, elevados níveis de pobreza e desemprego, baixos salários e condições de vida degradantes para uma grande parte da população. Sublinha que este cenário não resulta de discurso político opositor, mas do quotidiano vivido por muitos angolanos.
Como resposta, Kamalata Numa apela ao abandono de manobras políticas de curto prazo e defende a construção de um compromisso nacional sustentado em princípios como o respeito pela Constituição, reformas eleitorais credíveis, separação de poderes, liberdade de imprensa, justiça independente e inclusão política.
Por fim, o autor convoca a sociedade angolana, dentro e fora do país, a assumir um papel ativo e consciente na exigência de um novo contrato político. Defende uma mobilização pacífica em prol de um reencontro nacional que promova unidade, reconciliação e liberdade, advertindo que a história não absolverá nem os que governam pela ignorância, nem os que permanecem em silêncio perante o declínio do país.

