Bié — Micaela da Conceição, conhecida na comunidade como Kasova, faleceu no passado dia 23 de junho, no Hospital Central do Bié, vítima de fome severa. A mulher de 45 anos, natural de Katabola, vivia em extrema vulnerabilidade no Bairro Embala, próximo à Igreja IESA, em condições habitacionais precárias. O seu funeral ocorreu dois dias depois, no Cemitério Municipal do Kwitu, com escassa assistência e grande comoção entre os moradores.
A tragédia lançou luz sobre a dura realidade social de muitos angolanos e expôs falhas graves nas políticas de apoio a famílias em situação de pobreza extrema. Mãe solteira, Kasova sustentava-se com a ajuda do seu único filho, Chinda, de 16 anos, estudante e filho do atual comandante da Polícia Nacional da Comuna de Tulumba/Trumba. O adolescente, visivelmente emocionado, afirmou que os dois enfrentavam graves dificuldades alimentares, situação que era do conhecimento da vizinhança, mas ignorada pelas autoridades.
“Se tivesse dado antes, talvez salvasse a vida da minha mãe”
A indignação tomou conta dos presentes ao saberem que, segundo o jovem, o pai apenas contribuiu com 50 mil kwanzas após a morte da mulher, verba destinada à compra da urna. “Se tivesse dado antes, talvez salvasse a vida da minha mãe”, lamentou Chinda durante o enterro.
Testemunhos de moradores e familiares confirmam que Kasova sofria de subnutrição extrema há semanas, agravada pela falta de qualquer tipo de apoio institucional. A sobrinha da falecida, Suzana, que viajou da província do Huambo, confirmou que a causa do óbito foi fome severa, conforme também relatado por vizinhos.
Dois irmãos da vítima, residentes em Luanda, chegaram apenas após o sepultamento e, segundo relatos, não ofereceram ajuda financeira durante a doença de Kasova, apesar do contacto esporádico.
O caso gerou profunda comoção entre os habitantes do Kwitu, reacendendo o debate sobre a insegurança alimentar e a fragilidade das redes de proteção social em Angola. “As pessoas estão a morrer de fome em Angola”, declarou um morador, traduzindo o sentimento geral de revolta e impotência.
Este caso, ainda que individual, levanta sérias questões sobre o abandono de mulheres chefes de família e a ausência de respostas rápidas por parte das autoridades locais. Organizações da sociedade civil e ativistas sociais têm reforçado o apelo para que o Governo implemente medidas de emergência alimentar, especialmente em zonas rurais e bairros periféricos onde a fome avança silenciosamente.
A morte de Kasova é mais do que uma tragédia familiar — é um alerta urgente para o país.

