O modelo de organização da economia angolana continua a assentar na concentração de sectores estratégicos em torno de grandes grupos empresariais próximos do poder político. Entre os conglomerados que mais cresceram nos últimos anos destaca-se o Grupo Carrinho, cuja expansão se estende da agro-indústria à logística alimentar e, mais recentemente, ao sector bancário.
A implementação da Reserva Estratégica Alimentar (REA), criada com o objectivo de estabilizar preços e assegurar o abastecimento, marcou um dos momentos mais relevantes da afirmação do grupo. A gestão operacional foi atribuída à Gescesta, empresa ligada ao Grupo Carrinho, enquanto o Entreposto Aduaneiro de Angola assumiu a componente institucional.
No primeiro ano de funcionamento, em 2021, o Estado canalizou mais de 200 milhões de dólares para a REA. Entre o final desse ano e 2022, o Presidente João Lourenço autorizou créditos suplementares que totalizaram 194,4 milhões de dólares. Dados divulgados pela Rádio Nacional de Angola indicam que, só em 2022, a estrutura movimentou mais de 500 milhões de dólares em operações de compra e venda de produtos alimentares.
Informações tornadas públicas ao longo do processo apontam que o operador privado concentrou várias etapas da cadeia — desde a escolha de fornecedores internacionais até à distribuição interna. Em 2023, o Executivo determinou o fim do contrato com a Gescesta, alegando indícios de má gestão e ordenando uma auditoria. Contudo, os resultados dessa averiguação não foram divulgados publicamente.
Após o período da REA, o Grupo Carrinho assegurou o fornecimento exclusivo de bens alimentares às Forças Armadas Angolanas (FAA) a partir de 2023. Durante esse tempo, surgiram relatos internos sobre falhas no abastecimento. Em Janeiro último, o contrato passou a ser partilhado com a empresa ATL-Alfa – Transporte e Logística, Lda., ligada a interesses empresariais associados ao círculo governamental. A alteração não foi acompanhada de esclarecimentos públicos detalhados.
Informações divulgadas por órgãos de investigação jornalística indicam ainda que o grupo detém parte significativa do abastecimento logístico do Ministério do Interior e do Comando-Geral da Polícia Nacional.
A trajectória do Grupo Carrinho coincidiu com o reforço das relações entre Angola e os Estados Unidos. Em Dezembro de 2024, o então Presidente norte-americano Joe Biden visitou instalações industriais da empresa em Benguela, no âmbito da estratégia ligada ao Corredor do Lobito, gesto interpretado como sinal de reconhecimento internacional.
No sector financeiro, o grupo tornou-se proprietário do Banco do Comércio e Indústria (BCI) em Dezembro de 2021. Em Agosto de 2024, a Autoridade Reguladora da Concorrência autorizou uma operação que permite ao grupo assumir o controlo do Banco Keve, decisão ainda dependente de validação pelo Banco Nacional de Angola. Em 2025, o conglomerado reforçou a sua presença accionista ao adquirir 7,61% do capital por intermédio da subsidiária financeira Congolian.
Analistas alertam que a consolidação simultânea em áreas como agro-indústria, logística estratégica e banca pode gerar riscos concorrenciais e potenciais conflitos de interesse, sobretudo num contexto institucional onde os mecanismos de supervisão ainda enfrentam desafios.
Apesar da crescente presença em sectores considerados sensíveis, não são conhecidas demonstrações financeiras consolidadas auditadas do grupo acessíveis ao público. A única referência a resultados foi um valor de lucro anunciado verbalmente para 2022, estimado em cerca de 322 milhões de dólares, sem documentação publicada que o sustente.
Sabe-se igualmente que, em 2024, o Estado liquidou dívidas avaliadas em cerca de 30 mil milhões de kwanzas ao conglomerado, mas os detalhes dessas operações não foram amplamente divulgados
Especialistas sublinham que, quando contratos públicos, garantias soberanas e actividades estratégicas convergem numa única estrutura empresarial, aumentam as exigências de transparência e escrutínio. A concentração económica em torno de poucos grupos levanta, assim, interrogações sobre concorrência, equilíbrio de mercado e separação entre interesses públicos e privados.
A evolução do Grupo Carrinho continuará a ser acompanhada com atenção, num contexto em que o debate sobre regulação, concorrência e responsabilidade pública ganha novo fôlego em Angola.

