A Europa vive um momento de forte tensão estratégica ao ver-se confrontada com dois desafios simultâneos à soberania territorial: a continuidade da guerra da Rússia contra a Ucrânia e as recentes ameaças do Presidente norte-americano, Donald Trump, relacionadas com a Gronelândia, território autónomo do Reino da Dinamarca. A situação levanta dúvidas profundas sobre a solidez da cooperação transatlântica e o futuro da arquitetura de segurança europeia.
Nos últimos quatro anos, os líderes europeus mobilizaram-se intensamente para apoiar a Ucrânia face à invasão russa, multiplicando declarações de condenação, contactos diplomáticos de alto nível e reuniões de emergência. No entanto, no último fim de semana, esse mesmo esforço foi replicado para responder a pressões vindas de um aliado histórico: os Estados Unidos.
Perante as ameaças de Trump de impor tarifas de 10% a vários países europeus — incluindo Dinamarca, França, Alemanha, Reino Unido e países nórdicos — como forma de forçar a aquisição da Gronelândia, dirigentes europeus reagiram com firmeza. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou, após contactos com líderes de várias potências europeias, que a União Europeia está unida na defesa da soberania da Gronelândia e do Reino da Dinamarca, sublinhando que a Europa protegerá os seus interesses estratégicos económicos e de segurança.
As declarações ecoaram a retórica usada repetidamente no apoio a Kiev, evidenciando a contradição com que a Europa se depara: defender a soberania de um país europeu contra pressões de Washington enquanto continua a depender dos Estados Unidos como principal garante da segurança da Ucrânia.
A ameaça de uma guerra comercial por parte dos EUA, dirigida a aliados da NATO, é vista em várias capitais europeias como um abalo sério ao princípio da defesa coletiva que tem sustentado a aliança transatlântica desde o pós-Segunda Guerra Mundial. Para muitos analistas, mesmo que as medidas anunciadas não se concretizem, o simples facto de terem sido colocadas em cima da mesa mina a confiança mútua.
Este choque ocorre num momento particularmente sensível. A Europa e os Estados Unidos têm vindo a trabalhar, desde o início de 2025, na definição de garantias de segurança para uma Ucrânia no pós-guerra. Esse esforço ganhou novo impulso após contactos diretos de Trump com Vladimir Putin, que inicialmente deixaram os europeus à margem das negociações.
No início de janeiro, enviados especiais norte-americanos participaram, pela primeira vez, numa reunião da chamada “Coligação dos Dispostos”, liderada por França e Reino Unido, que resultou na apresentação de cinco garantias de segurança para proteger a Ucrânia de futuras agressões russas. Entre elas estão mecanismos avançados de monitorização de um eventual cessar-fogo, uma força multinacional no terreno e compromissos jurídicos de assistência a Kiev em caso de novo ataque.
Apesar disso, as ameaças relacionadas com a Gronelândia levantaram uma questão incómoda nas capitais europeias: até que ponto é possível confiar no apoio dos Estados Unidos à soberania da Ucrânia se Washington demonstra disponibilidade para pressionar, ou mesmo violar, a soberania de um aliado europeu?
O Presidente francês, Emmanuel Macron, foi um dos primeiros a estabelecer uma ligação direta entre os dois dossiês, afirmando que a Europa não se deixará intimidar nem na Ucrânia, nem na Gronelândia, nem em qualquer outra parte do mundo. Para Paris, ceder num dos casos significaria fragilizar o princípio geral da inviolabilidade das fronteiras.
A preocupação é partilhada por outros líderes. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, alertou que um eventual sucesso de uma ação norte-americana sobre a Gronelândia teria efeitos devastadores para a NATO e seria visto como uma vitória indireta por Vladimir Putin, ao legitimar o uso da força para alterar fronteiras.
Analistas sublinham que, se a crise se agravar, poderá tornar-se politicamente insustentável para os europeus continuar a cooperar estreitamente com os Estados Unidos na definição das garantias de segurança para a Ucrânia. Mesmo mantendo canais diplomáticos abertos, a erosão da confiança poderá comprometer a eficácia de qualquer acordo.
O impasse evidencia aquilo que vários observadores já classificam como um “puzzle impossível” para a Europa: manter uma frente unida contra a agressão russa, enquanto gere uma relação cada vez mais imprevisível com o seu principal aliado histórico, num contexto em que a soberania e o direito internacional estão novamente no centro das disputas globais.

