O petróleo, que durante anos foi o motor da economia angolana, é hoje descrito como uma “bênção e maldição” para o país. A afirmação, feita por um analista económico, reflete a realidade de uma economia que cresceu à sombra do setor petrolífero, mas que pouco diversificou a sua base produtiva.
Segundo o especialista, Angola é um exemplo clássico da chamada “doença holandesa”, fenómeno identificado na Holanda nos anos 1960, quando as receitas do gás natural provocaram o enfraquecimento de outros setores económicos. No caso angolano, o rápido fluxo de receitas petrolíferas levou o país a adotar uma economia rentista, negligenciando áreas fundamentais como a agricultura e a indústria transformadora.
Em 1974, antes da independência, cerca de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) angolano vinha da agricultura. Atualmente, o setor representa apenas 4%. O mesmo aconteceu com a indústria, que caiu de 18% para cerca de 5% do PIB. “Angola construiu uma economia de enclave em torno do petróleo, desperdiçando a oportunidade de investir de forma estruturante na educação, saúde e diversificação económica”, lamentou o especialista.
A corrupção é apontada como o “grande elefante na sala”. Um estudo do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola, liderado pelo economista Manuel Alves da Rocha, revelou que entre 2002 e 2015 o Estado angolano arrecadou cerca de **840 mil milhões de dólares** em receitas petrolíferas. Deste montante, apenas **110 mil milhões** foram aplicados em infraestruturas, tendo **130 mil milhões** “desaparecido sem rasto”.
“Angola seria hoje um país diferente se esses recursos tivessem sido aplicados em benefício público”, sublinhou o analista, acrescentando que “é urgente uma profunda reforma ética e institucional”.
Apesar das medidas anticorrupção lançadas em 2017 pelo Presidente João Lourenço, os avanços são considerados “tímidos”. A economia mantém um crescimento fraco desde 2008, tendo enfrentado uma contração de 11% entre 2015 e 2020. A dívida externa, especialmente com a China, tornou-se outro problema estrutural. O fim das moratórias e a exigência de pagamento tornaram a situação financeira do Estado “extraordinariamente difícil”.
Em 2024, as reservas cambiais caíram para 15,7 mil milhões de dólares, com previsões de uma nova redução em 2025. “Durante o ciclo de ouro de 2002 a 2008, as receitas do petróleo poderiam ter sido usadas para abater a dívida e diversificar a economia. Em vez disso, a dívida aumentou, chegando a 96 mil milhões de dólares em 2019”, recordou.
As consequências sociais são graves: pobreza, fome, desnutrição infantil e fracas políticas públicas. “Em 2025, apenas 1% das verbas orçamentadas para políticas sociais foram executadas. A educação e a saúde enfrentam o mesmo cenário”, apontou.
Para inverter o quadro, o economista defende uma nova estratégia de desenvolvimento centrada na agricultura e na reindustrialização. Angola dispõe de 35 milhões de hectares de terras aráveis, mas apenas 16% estão a ser aproveitadas. “É necessário reorganizar os mercados rurais, apoiar a agricultura familiar e criar um Banco de Sementes e de Equipamentos Agrícolas”, propõe.
A eletrificação rural e o microcrédito também são vistos como chaves para o desenvolvimento. “A eletrificação pode transformar as comunidades agrícolas, tal como o microcrédito transformou o Bangladesh com o modelo de Mohammed Yunus”, exemplificou.
Por fim, o especialista apelou a uma “reindustrialização ativa”, com políticas públicas e parcerias estratégicas para reativar as centenas de fábricas atualmente inativas. “Angola tem potencial para renascer economicamente, mas isso exigirá coragem política, ética e visão de futuro”, concluiu.

