A saída inesperada de Carolina Cerqueira da presidência da Assembleia Nacional terá sido motivada pela resistência da dirigente a um eventual terceiro mandato do Presidente João Lourenço, apesar de o chefe de Estado ter afirmado publicamente que não pretende voltar a concorrer em 2027. Nos bastidores, porém, sinais de preparação política em sentido contrário estão a gerar tensão no seio do MPLA.
A informação foi avançada por fontes próximas ao processo, que garantem que Carolina Cerqueira se mostrava contrária a abrir o parlamento a um debate constitucional que permitisse alterar os limites de mandato presidencial. O tema ganharia força após o congresso do MPLA previsto para finais de 2027, momento crucial para a estratégia interna do partido.
Na reunião do Bureau Político do MPLA realizada na última segunda-feira, João Lourenço surpreendeu ao propor a substituição de Carolina Cerqueira pelo então ministro de Estado Adão de Almeida. A sessão durou cerca de 40 minutos e teve apenas dois pontos na agenda: a sua destituição e a aprovação de uma declaração de apoio às linhas estratégicas do Presidente.
Segundo fontes citadas pelo Club-K, Carolina Cerqueira não foi avisada previamente da decisão, tendo tomado conhecimento no próprio encontro.
Além da oposição ao debate sobre o terceiro mandato, o afastamento de Carolina terá sido influenciado pelas suas ligações ao general Higino Lopes Carneiro, pré-candidato ao congresso do MPLA e figura em ascensão interna. Ambos são naturais do Libolo e mantêm relações próximas. Um irmão de Carolina, José Cerqueira, teria mesmo interesses cruzados com o general.
Carolina foi alvo de acusações disseminadas por estruturas de propaganda próximas ao regime, que a apontaram como responsável por facilitar a renovação do passaporte diplomático de Higino Carneiro, permitindo-lhe deslocações internacionais para captar apoios. Pouco depois, Higino Carneiro foi alvo de ataques nos meios de comunicação estatais, que o acusaram, sem provas, de contratar um ex-espião da CIA. Fontes indicam que novas tentativas de o associar a cidadãos russos detidos recentemente poderão surgir em breve.
João Lourenço é contrário a um congresso com múltiplas candidaturas, cenário que poderia fragilizar os seus planos políticos. O objetivo será garantir uma corrida interna sem oposição e, após o congresso, avançar para uma proposta de revisão constitucional que elimine os limites de mandato presidencial.
A última revisão da Constituição, em abril de 2021, introduziu mudanças institucionais e administrativas, incluindo clarificações sobre o mandato do Vice-Presidente. Já meses depois, Lourenço começou a sugerir publicamente que dez anos não seriam suficientes para concluir o seu projeto político.
Em agosto de 2021, durante uma visita à Lunda-Sul, o Presidente afirmou: “Um país não se constrói em dez anos.” Embora tenha reconhecido que cada dirigente deve “passar o testemunho”, a mensagem reforçou, segundo analistas, a sua disposição de prolongar a permanência no poder.
A substituição de Carolina Cerqueira surge, assim, num momento em que se intensificam as movimentações internas em torno do futuro da liderança do MPLA e das perspectivas de alteração constitucional no país.

