Maputo – O Governo moçambicano confirmou esta semana a desativação de mais de 18 mil funcionários públicos “fantasmas”, casos de pessoas que recebiam salários sem exercer funções no Estado ou que, em alguns casos, nunca chegaram a existir nos registos oficiais.
O anúncio foi feito pelo ministro da Administração Estatal e Função Pública, Inocêncio Impissa, que prometeu “purificar” a máquina pública e responsabilizar os envolvidos no esquema. Contudo, a polémica abriu espaço a novas críticas da oposição e de analistas, que defendem que estas vagas devem ser revertidas em benefício dos jovens desempregados.
A RENAMO, principal partido da oposição, pediu ao Executivo a abertura imediata de concursos públicos para que os jovens possam ocupar os lugares agora disponíveis. Já o analista político Ernesto Júnior, em entrevista à DW África, classificou o episódio como mais uma “novela” recorrente na Administração Pública moçambicana e alertou para a existência de uma rede organizada de corrupção.
Segundo Júnior, o caso revela falhas graves na gestão dos recursos humanos do Estado e levanta dúvidas sobre a real dimensão do problema. “Hoje temos funcionários públicos que continuam sem receber salários, enquanto 18 mil ordenados iam parar a contas que ninguém explica. Isso mostra que há um esquema por detrás”, sublinhou.
O especialista também defendeu que o combate à corrupção deve ser acompanhado por medidas concretas de responsabilização e pela criação de oportunidades de emprego para os jovens: “Se estas 18 mil vagas fossem direcionadas a novos concursos, milhares de jovens poderiam ter acesso a trabalho digno no Estado. Esta seria uma forma de restaurar a confiança e reduzir o desemprego no país”.
Estima-se que os “salários fantasmas” tenham provocado um prejuízo mínimo de 1.900 milhões de meticais (cerca de 25 milhões de euros), valor calculado com base no salário mínimo nacional. Até ao momento, o Governo ainda não divulgou números oficiais sobre o montante total envolvido, nem os nomes dos eventuais responsáveis.
A polémica surge num contexto em que Moçambique enfrenta sérios desafios económicos e altos índices de desemprego, sobretudo entre a juventude. Para vários observadores, a forma como o Executivo de Daniel Chapo conduzir este processo poderá definir se o combate à corrupção será apenas simbólico ou um passo real para a mudança estrutural no país.

