Luanda – A recente subida do preço dos combustíveis e dos transportes em Angola voltou a acender o debate sobre as responsabilidades por detrás do encarecimento do custo de vida no país. No último sábado (12), centenas de cidadãos manifestaram-se nas ruas de Luanda para contestar os aumentos e responsabilizar o Governo e o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Entre os manifestantes estava a ativista Rosa Conde, que acusa diretamente o FMI de influenciar as decisões económicas que estão a penalizar a população. “O povo não tem que pagar dívidas feitas pelo Presidente João Lourenço. Nunca vi o FMI dar comida ou roupa ao povo”, afirmou durante o protesto.
Contudo, especialistas defendem uma perspetiva mais técnica e estruturada. Em entrevista à **DW África**, o economista Carlos Rosado de Carvalho esclareceu que os aumentos decorrem da decisão do próprio Governo angolano de eliminar os subsídios aos combustíveis. “O responsável pela subida dos preços é o Governo, que decidiu – corretamente, na minha opinião – retirar os subsídios. Isso é o que causa o aumento nos preços nas bombas”, explicou.
A medida tem impacto direto no Orçamento Geral do Estado. De acordo com Rosado de Carvalho, em 2023 os subsídios aos combustíveis custaram mais de três mil milhões de dólares aos cofres públicos — valor superior ao investimento nacional em setores como saúde e educação.
A eliminação gradual dessas subvenções terá gerado uma poupança de cerca de 400 mil milhões de kwanzas (aproximadamente 436 milhões de dólares), segundo dados oficiais, que o Executivo promete aplicar em áreas sociais prioritárias.
Embora o programa de assistência financeira do FMI a Angola tenha terminado em 2021, muitos veem nas atuais políticas económicas a continuação da influência da instituição. O jornalista Faustino Henriques critica o papel do FMI, considerando-o uma ferramenta de pressão das grandes potências. “O FMI e o Banco Mundial impõem medidas duras a países vulneráveis. As suas intervenções nem sempre têm em conta a realidade das populações”, afirmou.
No entanto, Rosado de Carvalho contrapõe que muitas das recomendações do FMI seriam, de qualquer forma, inevitáveis. “O Fundo só nos pede para fazermos o que deveríamos fazer por nós mesmos”, defende.
Apesar da argumentação técnica, os críticos alertam para a ausência de medidas de proteção social que atenúem o impacto das subidas nos combustíveis, sobretudo junto das famílias mais carenciadas. O próprio FMI reconheceu, em fevereiro deste ano, que a retirada de subsídios é um processo sensível e que deve ser acompanhada de mecanismos de compensação adequados.
Enquanto o Governo garante que os recursos libertos serão reinvestidos em setores essenciais, a população continua a ressentir-se da subida dos preços, e muitos questionam se a política adotada está, de facto, a beneficiar os mais vulneráveis. O debate está longe de encerrar.

