LUANDA (24/04/2026) – Cerca de 10 mil antigos efetivos dos Comandos Búfalos ACB2, força que combateu ao lado das FALA durante o conflito armado, acusam o Governo angolano e a UNITA de abandono político e exigem o “reenquadramento imediato ou desmobilização formal” dos seus membros. A denúncia foi feita pelo porta-voz do grupo, general António Isaac Tchiyaya, em declarações exclusivas.
“É vergonhoso negarem que estivemos lá”
Tchiyaya classifica como “vergonha política” o facto de instituições do Estado alegarem desconhecimento sobre os Comandos Búfalos. “É muito vergonhoso quando você sabe que o cicrano estava comigo, mas depois, numa determinada posição, diz ‘não conheço’. Conhecem, sim. O Governo angolano conhece muito bem o que são os Comandos Búfalos Acertadores”, afirmou.
Segundo o general, o grupo já apresentou o dossier em “todas as instâncias”: Casa de Segurança Militar do Presidente da República, Procuradoria-Geral da República, Ministério da Defesa, Ministério da Justiça e Direitos Humanos, Comando Geral da Polícia Nacional, Presidência do Legado Histórico Militar e serviços de Inteligência Militar. “Não temos nenhum sítio onde não passámos. O governo conhece o processo”, garantiu.
Desmobilização travada desde 1992
Os Comandos Búfalos deveriam ter sido desmobilizados em 1992, explica Tchiyaya, mas foram mantidos como “tropa de retaguarda”. “Se o Dr. Jonas Malheiro Savimbi não morresse, até hoje já estaríamos livres, porque ele sabia o que nós estamos a falar”, disse.
O porta-voz cita ainda declarações do malogrado general Kamorteiro: “Ele disse: ‘eu sou chefe de Estado-Maior das FALA e não dos Comandos Búfalos’. Dou-lhe razão, porque quem deve responder pelos Búfalos é o próprio integrante, não é outro que vem de fora. Mas recusar dizendo que não nos viram, isso não se deve fazer”.
10 mil homens e um documento de 2013
Tchiyaya afirma representar “10 mil homens a nível nacional”, dos quais 7.500 foram controlados e 1.947 estão desaparecidos. Como prova, exibe a “Circular Nacional nº 001/2013”, da Direção Principal do Serviço de Inteligência Militar do Estado-Maior General, datada de 17 de maio de 2013.
“O documento fala por si. Determina o reenquadramento de ex-militares das FALA e dos Comandos Búfalos ACB2 que se encontram fora da corporação. Foi aprovado, mas há ‘lobos e raposas’ que prejudicaram o processo”, acusa. Em 2015, 45 elementos do grupo chegaram a ser presos. “Não fomos presos porque estávamos noutro trabalho. Fizemos tudo para que o Governo libertasse os companheiros”, relatou.
Apelo direto a João Lourenço
A mensagem às autoridades é clara: “Chamar todos para desmobilizá-los, colocar o homem no seu devido lugar, tirar-lhe o nome que ostenta até agora e colocá-lo no macrossistema. Desmobilizar, reenquadrá-lo no Ministério da Defesa e no Ministério do Interior. Para as famílias, colocar na vida civil ativa. É isso que queremos”.
Tchiyaya avisa que o grupo não vai “dormir na sombra da bananeira” enquanto espera. “As eleições vêm aí. Não queremos avançar para 2027, 2028 e surgir outro governo a dizer que tem de analisar. Estamos com este governo, do estadista João Manuel Gonçalves Lourenço. Ele sabe muito bem deste processo, é sabedor, é entendedor. Tem de terminar”.
“Militar não manifesta, mas vamos recorrer ao internacional”
O porta-voz rejeita manifestações. “O militar não manifesta, porque se manifestar haverá desacato. Há uma polícia que vai querer mexer e eu logo vou reagir. Os Comandos Búfalos estão sensibilizados em não fazer manifestações, mas colocar os traços nos t’s e os pontos nos i’s”.
Caso o processo continue parado, adianta: “Vamos recorrer a nível internacional. A opinião internacional poderá nos ajudar. Não fizemos isto antes porque sabemos que estamos aqui. Vamos enfrentar o nosso próprio governo para nos dar aquilo que necessitamos”.“Desistir nunca”
Tchiyaya encerra com o lema do grupo desde 2016: “Desistir nunca. O caminho eterno é longo, mas a vitória é certa. Pode demorar, mas o processo vai ser viabilizado”.

