Maputo – Observadores da vida política moçambicana têm manifestado preocupação com o fortalecimento de centros de poder informais que actuam à margem das estruturas oficiais do Estado. Analistas alertam para a consolidação de um modelo descrito como um “Estado dentro do Estado”, no qual decisões estratégicas estariam a ser influenciadas por figuras sem mandato público nem responsabilidade institucional.
Segundo fontes ligadas ao sector público e empresarial, estas redes operam num ambiente marcado pela falta de transparência e por limites pouco claros, condicionando processos administrativos, económicos e políticos que, em princípio, deveriam obedecer exclusivamente aos canais formais do Estado.
Embora Moçambique tenha historicamente convivido com influências exercidas nos bastidores do poder, o momento actual é visto como distinto. Há indícios da emergência de um novo grupo de actores informais que, de forma mais visível e ousada, passa a interferir em sectores considerados estratégicos para o funcionamento do Estado.
Empresários e funcionários públicos ouvidos em reserva referem que estas figuras, sem cargos oficiais e fora do escrutínio público, actuam como verdadeiros decisores, exercendo pressão sobre investimentos, concessões, processos administrativos e opções económicas de grande impacto nacional.
Especialistas alertam que este tipo de actuação pode transformar o aparelho do Estado num espaço dominado por favores, influências e intimidações veladas, fragilizando o interesse público e a credibilidade das instituições.
No centro das denúncias surgem intermediários que fariam a ponte entre interesses privados e a esfera governamental. Entre os nomes citados está Alcides Viegas Chihono, conhecido no meio desportivo como “Cantoná”, antigo futebolista que, segundo diversas fontes, se destacou recentemente como lobista político e empresário influente.
A trajectória de Cantoná é apontada como exemplo da ascensão deste poder informal. De acordo com relatos recolhidos, o ex-jogador terá construído uma posição de influência significativa, acompanhada por sinais exteriores de riqueza — como viaturas de luxo e propriedades em várias províncias — que, segundo fontes empresariais, levantam dúvidas quanto à compatibilidade com o seu percurso financeiro conhecido.
Há ainda referências a uma alegada intervenção em processos de nomeação, concessão de benefícios fiscais e intermediação de investimentos estrangeiros provenientes de países como Nigéria, Angola e China, embora tais alegações não tenham sido oficialmente confirmadas.
Apelidado em alguns círculos de “primeiro-ministro informal”, Cantoná é descrito como alguém cuja influência cresce na proximidade do poder político, suscitando questionamentos sobre a origem da sua fortuna e eventuais ligações a actividades irregulares, alegadamente protegidas por interesses de alto nível.
Até ao momento, as autoridades moçambicanas não se pronunciaram publicamente sobre estas denúncias, que continuam a alimentar o debate sobre transparência, governação e o respeito pelos princípios da institucionalidade do Estado.

