Luanda – As novas regras migratórias anunciadas pela administração norte-americana estão a tornar o acesso aos Estados Unidos significativamente mais difícil para cidadãos de vários países africanos, incluindo Angola e Cabo Verde. Desde 21 de janeiro, estes países passaram a integrar uma lista de 38 Estados cujos cidadãos são obrigados a pagar uma caução de 15 mil dólares para obter vistos de turismo ou de negócios.
A medida, que já abrangia países como Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, tem sido encarada por analistas como um forte entrave ao chamado “sonho americano”, sobretudo para jovens e famílias de rendimentos médios ou baixos.
Edileia João, jovem angolana de 27 anos, conta que desde cedo ambicionava emigrar para os Estados Unidos em busca de formação, novas experiências e melhores oportunidades de vida. Segundo relata, o desejo nunca esteve ligado à rejeição do seu país de origem, mas à falta de perspetivas económicas para os jovens. Com as novas exigências financeiras, admite que esse projeto se tornou praticamente inalcançável.
Além das dificuldades económicas internas, as alterações na política migratória norte-americana surgem como mais um obstáculo. Para o analista angolano José Gama, a exigência de uma caução tão elevada representa “uma barreira quase intransponível” para a maioria da população dos países lusófonos africanos, uma vez que o valor equivale a vários anos de rendimento médio em países como Angola e Cabo Verde.
Segundo o analista, emigrar para os Estados Unidos é visto por muitos cidadãos desses países não apenas como uma oportunidade pessoal, mas também como uma forma de apoiar financeiramente as famílias através do envio de remessas. Com as novas regras, essa possibilidade fica restrita a uma minoria com elevado poder económico.
“O sonho americano deixa de ser uma aspiração coletiva e passa a ser um projeto reservado a poucos”, afirma José Gama.
O Governo de Cabo Verde já manifestou preocupação com o impacto da medida, admitindo que poderá prejudicar seriamente os seus cidadãos. Para o analista, as decisões anunciadas pelo antigo presidente Donald Trump enquadram-se numa estratégia de reforço da segurança e de controlo do fluxo migratório, funcionando também como instrumento de pressão diplomática sobre países estrangeiros, sobretudo em matérias como deportações e cooperação no controlo de fronteiras.
As novas regras reacendem o debate sobre as desigualdades no acesso à mobilidade internacional e sobre o futuro das migrações africanas para os Estados Unidos.

