Se as eleições gerais de 2027 em Angola decorrerem em ambiente livre e justo, o MPLA poderá enfrentar uma derrota, caso se mantenha a atual conjuntura socioeconómica e política. A avaliação tem como base fatores estruturais que, segundo analistas, dificilmente serão revertidos a curto prazo.
Um dos conceitos destacados é a chamada **“armadilha de Tácito”**, em que governos profundamente desacreditados perdem apoio mesmo quando adotam medidas corretas, já que a população interpreta qualquer decisão como oportunista ou negativa. Esse ciclo de desconfiança é apontado como um dos principais desafios da governação atual.
A crise económica agrava ainda mais esse cenário. A desvalorização do kwanza, aliada à inflação e ao desemprego, reduziu drasticamente o poder de compra das famílias, incluindo o das elites próximas ao poder. Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) revelam que entre 2021 e 2023 aumentou o número de pessoas em situação de desnutrição em Angola, passando de 6,8 para 8,3 milhões. Atualmente, quase 80% da população enfrenta insegurança alimentar em diferentes graus de gravidade.
Além disso, persistem críticas à condução da política económica. O impacto das medidas do FMI, os elevados níveis de despesa pública sem transparência, casos de corrupção e a manutenção da mesma equipa económica no governo são vistos como fatores que contribuem para a insatisfação popular.
Especialistas sublinham que a erosão da popularidade do partido no poder resulta, sobretudo, de falhas na gestão económica e do agravamento das desigualdades sociais. Para eles, o desafio do MPLA nas cerca de 100 semanas que restam até às eleições é recuperar a confiança popular, algo considerado extremamente difícil perante a profundidade da crise.
Apesar do desgaste do governo, analistas também apontam que a oposição, nomeadamente a UNITA, ainda não apresentou propostas estruturadas capazes de oferecer alternativas concretas à população.
Dessa forma, avalia-se que o maior risco para o MPLA em 2027 não decorre do avanço da oposição, mas sim da incapacidade do próprio partido em responder às dificuldades que atingem grande parte dos angolanos.

