Luanda — A capital angolana viveu esta segunda-feira o primeiro de três dias de greve dos taxistas, numa paralisação que afetou fortemente a mobilidade urbana e expôs, mais uma vez, a fragilidade do sistema de transportes públicos do país. O protesto, motivado pelo recente aumento do preço do gasóleo, foi marcado por distúrbios, vandalismo e crescente tensão social.
Com o colapso parcial do transporte coletivo, milhares de luandenses enfrentaram dificuldades para se deslocar. Sem alternativas viáveis à circulação dos populares “candongueiros”, Luanda praticamente parou. O cenário de caos agravou-se com bloqueios nas estradas, pneus incendiados, saques a estabelecimentos comerciais e confrontos entre civis e forças de segurança. Há relatos de mortos e feridos, incluindo um adolescente de 16 anos alvejado no bairro Golf II.
Nas redes sociais, multiplicam-se vídeos e imagens de violência urbana. Em um dos episódios mais marcantes, um carro foi apedrejado por manifestantes e, ao tentar fugir, atropelou dois dos atacantes. O incidente, ocorrido no bairro Nova Vida, foi presenciado pelo bastonário da Ordem dos Advogados, José Luís Domingos, que também teve sua viatura vandalizada.
Rafael Inácio, presidente da Cooperativa de Táxis Comunitários de Angola, declarou que sua organização não aderiu à greve, mas expressou solidariedade à causa. Ele condenou os atos de vandalismo e destacou que muitos taxistas têm tentado manifestar-se de forma pacífica e legal. “Estão a aproveitar-se da greve para cometer crimes. Isto é inaceitável”, afirmou.
Por trás do descontentamento está um cenário de crescente degradação das condições de vida. O aumento dos combustíveis ocorreu sem a devida compensação por parte do governo, que já gastou cerca de 800 milhões de dólares na aquisição de autocarros — a maioria dos quais não entrou em circulação ou foi desviada para campanhas políticas e interesses privados. Segundo dados oficiais, entre 2021 e meados de 2024, o Estado gastou mais de 9 biliões de kwanzas (cerca de 15 mil milhões de dólares) em subsídios aos combustíveis. No entanto, a redução desses apoios não se traduziu em melhorias tangíveis para a população.
Para muitos cidadãos, o custo do transporte compromete mais da metade do salário mínimo, tornando a mobilidade urbana um peso insustentável. Em bairros como Calemba II, moradores bloquearam vias em protesto, impedindo a circulação de veículos e aumentando o clima de tensão.
Enquanto a crise se agrava, o presidente João Lourenço mantém uma agenda internacional intensa, com viagens de alto custo que incluem uso de aviões VIP e comitivas numerosas. Essa discrepância entre os luxos do poder e as dificuldades enfrentadas pela população tem alimentado a frustração popular e colocado em xeque as prioridades do Governo.
Críticos apontam que a falta de diálogo com a sociedade e a centralização do poder têm minado a confiança nas instituições. A ausência de respostas concretas e a repressão dos protestos são vistas por muitos como sinais de um governo desconectado da realidade.
A greve dos táxis tornou-se, assim, símbolo de um mal-estar mais profundo: uma população cansada de promessas não cumpridas e de políticas públicas que parecem servir a poucos, enquanto a maioria enfrenta inflação, desemprego e insegurança crescente. A desordem nas ruas é reflexo de uma governação que, segundo analistas e cidadãos, continua a privilegiar o espetáculo político em detrimento de soluções reais para os problemas do país.

