Um jovem engenheiro de Moçambique está a apostar na inovação tecnológica para melhorar a vida de cidadãos com deficiência visual. João Rego, de 24 anos, trabalha desde 2022 no desenvolvimento de um protótipo de “óculos inteligentes” concebidos para aumentar a autonomia de pessoas cegas.
A iniciativa nasceu após o engenheiro ter acompanhado, em Maputo, uma reportagem sobre os desafios diários enfrentados por invisuais. Impactado pela realidade, decidiu aplicar os seus conhecimentos em engenharia eletrónica e robótica na criação de um dispositivo capaz de identificar obstáculos e alertar o utilizador por meio de vibrações.
O equipamento funciona com um conjunto de sensores integrados. Na versão mais recente — já em fase pré-final — os óculos contam com dez sensores que monitorizam diferentes pontos num ângulo de cerca de 120 graus. O sistema consegue detetar objetos até uma distância máxima de oito metros, embora esteja otimizado para quatro metros, considerada a faixa mais útil para a mobilidade urbana. Sempre que identifica um obstáculo, o dispositivo emite vibrações que orientam o utilizador.
Além do sistema de deteção, o protótipo integra tecnologia de localização e controlo de bateria em tempo real. Segundo o criador, o projeto passou por várias versões até atingir o modelo atual, tendo recorrido tanto a recursos disponíveis localmente como a componentes adquiridos no exterior, face às limitações do mercado tecnológico nacional.
Sem acesso a laboratórios sofisticados, João Rego desenvolve grande parte do trabalho no quintal da sua casa, no bairro da Bunhiça, a cerca de 20 quilómetros do centro da capital moçambicana. O espaço improvisado tornou-se o seu centro de experimentação, onde combina conhecimento técnico e compromisso social.
Os óculos já foram testados por dezenas de voluntários e continuam a ser aperfeiçoados. O objetivo é oferecer uma solução acessível que contribua para reduzir as barreiras enfrentadas por cerca de 700 mil moçambicanos com limitações visuais graves.
Para o jovem engenheiro, a tecnologia deve ser um instrumento de inclusão. O projeto, além de procurar devolver autonomia, pretende também estimular a inovação local e demonstrar que soluções de impacto social podem nascer em contextos com recursos limitados.

