A exposição da banca às regiões recentemente afetadas pelo mau tempo ultrapassa os 24,6 mil milhões de euros em crédito a famílias e empresas, segundo dados do Banco de Portugal referentes ao final do ano passado. Nestas zonas, onde foi decretada situação de calamidade após a passagem da depressão Kristin, concentram-se cerca de 11% da carteira total de crédito do sistema financeiro.
As regiões de Coimbra, Leiria, Lezíria do Tejo e Oeste estão entre as mais atingidas, abrangendo perto de meia centena de municípios. Só no segmento empresarial, a exposição bancária ascendia a 8,2 mil milhões de euros em dezembro, enquanto o crédito concedido a particulares — incluindo habitação e consumo — totalizava 16,5 mil milhões.
O impacto económico da destruição provocada pelas tempestades está a preocupar o setor financeiro. O presidente executivo do BCP, Miguel Maya, alertou recentemente para a necessidade de uma resposta rápida para evitar o colapso de empresas e a perda de postos de trabalho. Segundo o gestor, atrasos na retoma da atividade poderão afastar empresas dos seus mercados, com efeitos diretos na rendibilidade e no rendimento das famílias.
A situação coloca os bancos perante um cenário semelhante ao vivido durante a pandemia, embora agora circunscrito a determinadas áreas geográficas. Além dos danos materiais em habitações e unidades industriais, persistem incertezas quanto ao restabelecimento de serviços essenciais, o que pode atrasar o regresso à normalidade e aumentar o risco de incumprimento no crédito.
Caso a retoma seja lenta ou insuficiente, o setor financeiro poderá enfrentar um aumento do crédito malparado, obrigando a reforços de provisões. Para já, medidas como moratórias e layoff são vistas como instrumentos importantes para aliviar a pressão imediata sobre empresas e famílias.
Paralelamente, o Governo disponibilizou linhas de crédito com garantia pública no valor global de 1,5 mil milhões de euros, destinadas a apoiar a tesouraria e a recuperação empresarial. Deste montante, 100 milhões de euros correspondem a subvenções para empresas que mantenham atividade e emprego. Nos primeiros sete dias, mais de duas mil empresas recorreram a estas linhas, com candidaturas superiores a 500 milhões de euros, segundo o Banco de Fomento.
Ainda assim, vários responsáveis bancários admitem que os apoios poderão revelar-se insuficientes face à dimensão dos prejuízos. O presidente do BPI, João Pedro Oliveira e Costa, considerou que poderá ser necessário avançar com medidas adicionais após uma avaliação mais detalhada dos danos. Já o CEO do Santander Portugal, Pedro Castro e Almeida, defendeu a atribuição de apoios a fundo perdido, argumentando que o nível de destruição em zonas como Leiria e Marinha Grande dificilmente será resolvido apenas com moratórias e mais crédito.
Castro e Almeida sublinhou ainda que a atual situação das finanças públicas — com crescimento económico acima da média da Zona Euro, redução da dívida e registo de excedentes orçamentais — oferece margem para reforçar o apoio direto a empresas e famílias afetadas.

