Luanda — Em declarações contundentes durante uma entrevista exclusiva ao portal *O Decreto*, o activista cívico Benedito Jeremias, mais conhecido como Dito Dali, acusou o regime angolano de usar o entretenimento como instrumento de manipulação da juventude e criticou duramente as recentes medidas económicas do Governo, nomeadamente a retirada dos subsídios aos combustíveis.
Segundo Dali, a decisão de eliminar as subvenções foi imposta por instituições financeiras internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, sem que fossem levadas em conta as condições de vida da população angolana. Para o activista, trata-se de uma medida que irá agravar ainda mais a crise económica e social no país. “O povo já vive mal, e agora viverá pior”, declarou.
O activista denunciou ainda que o Executivo controla a juventude com memes, festas e figuras públicas do entretenimento, que segundo ele, “trabalham para o Gabinete de Acção Psicológica da Presidência da República”. Dali afirma que há uma estratégia montada para manter os jovens distraídos e afastados dos debates políticos e sociais relevantes.
“A juventude não está apenas adormecida, está adestrada. O sistema criou mecanismos de manipulação mental que afastam os jovens da realidade”, frisou.
Questionado sobre o papel da oposição, Dito Dali foi claro: “Não é só a oposição que deve reagir. É o povo que tem de pressionar os partidos para que actuem. Precisamos de consciência cívica e de mobilização popular”.
O activista defende que apenas com a união entre a sociedade civil e os partidos políticos da oposição será possível romper com o atual regime liderado pelo MPLA. Ele sublinhou a necessidade de se combater a fragmentação e os conflitos internos que têm enfraquecido os movimentos de contestação.
Dali alertou para os efeitos nefastos do aumento do preço dos combustíveis, que deverá refletir-se em toda a cadeia económica — desde o transporte até aos preços dos bens essenciais. Segundo ele, o Executivo não apresenta alternativas ou programas eficazes de compensação, como subsídios ao transporte público, apoio às microempresas ou incentivos à produção nacional.
“A inflação vai disparar, e o poder de compra vai cair drasticamente. As famílias mais pobres, sobretudo nos musseques, serão as primeiras vítimas”, alertou.
Apesar do cenário que descreve como crítico, Dali mostrou-se confiante de que haverá uma viragem. “O nosso silêncio foi estratégico. Estamos a trabalhar de forma estruturada. Haverá surpresas”, garantiu.
Inspirado pelos movimentos populares em países vizinhos, o activista apelou à juventude angolana para que se una e canalize o descontentamento em ações concretas. “A mudança depende de nós. A juventude tem poder, mas precisa de ser organizada e guiada por lideranças comprometidas”, concluiu.
As declarações de Dito Dali reacendem o debate sobre o espaço de participação cívica em Angola e colocam mais uma vez sob os holofotes a pressão social crescente num país marcado por dificuldades económicas e tensões políticas.

