Luanda — O vice-presidente da UNITA, Álvaro Chikwamanga, acusou a Direção do MPLA de ter orientado a intervenção da Polícia Nacional que ocorreu no sábado junto à estrutura provincial do partido no Uíge.
Para o dirigente da principal força da oposição, o episódio não deve ser interpretado como um incidente isolado ou resultado de um simples desentendimento entre as autoridades e o partido. Chikwamanga sustenta que a operação terá sido previamente preparada com o objetivo de atingir dirigentes e militantes da UNITA.
As declarações foram feitas depois dos confrontos registados na cidade do Uíge, onde uma atividade política da UNITA acabou por ser adiada.
Segundo Álvaro Chikwamanga, o momento escolhido para a intervenção policial merece particular atenção, uma vez que vários membros da direção nacional da UNITA encontravam-se na província.
Entre os dirigentes presentes estava o presidente do partido, Adalberto Costa Júnior, que participava em atividades relacionadas com a juventude da organização e deveria presidir ao ato central das comemorações do aniversário de Jonas Savimbi, fundador da UNITA.
O vice-presidente afirma que as autoridades terão encerrado estabelecimentos comerciais e o mercado localizado nas proximidades do local inicialmente previsto para a atividade.
Na sua versão dos acontecimentos, a intervenção policial ocorreu quando vários dirigentes já se encontravam concentrados nas instalações do partido.
Chikwamanga acusa as forças de segurança de terem utilizado gás lacrimogéneo e munições reais. A alegação, contudo, não foi acompanhada, nas declarações divulgadas, por elementos independentes que permitam confirmar o uso de munições reais.
“Tentativa de decapitar” a estrutura da oposição
O dirigente da UNITA considera que a concentração de membros da direção do partido no Uíge poderia ter criado uma oportunidade para atingir simultaneamente vários quadros importantes da organização.
Na interpretação de Chikwamanga, o alegado objetivo seria enfraquecer a capacidade de liderança e organização da UNITA antes das eleições gerais previstas para 2027.
O vice-presidente descreveu ainda os efetivos mobilizados no Uíge como uma força policial especialmente preparada e equipada, destacando a presença de veículos novos durante a operação.
A UNITA considera que a dimensão do dispositivo policial utilizado levanta questões sobre a natureza da operação e sobre a forma como as autoridades decidiram responder à atividade partidária.
Outro ponto contestado por Chikwamanga é a explicação das autoridades sobre a realização do ato nas proximidades do Tribunal da Comarca do Uíge.
O dirigente argumenta que a sede provincial da UNITA se encontra em frente ao tribunal e que, no passado, o partido realizou naquele espaço diversas atividades políticas sem que a proximidade do órgão judicial tivesse constituído um obstáculo.
Chikwamanga recordou ainda que Adalberto Costa Júnior teria sido recebido no local, dias antes, com acompanhamento policial.
Perante isso, questionou a razão pela qual a localização teria passado a constituir um problema precisamente durante a atividade agora impedida.
O dirigente rejeitou igualmente a argumentação relativa ao encerramento de ruas, defendendo que alterações temporárias à circulação podem ocorrer durante atividades públicas e de grande dimensão previamente comunicadas às autoridades.
A indicação do Largo da Independência como possível local alternativo para a realização do ato também foi contestada pela UNITA.
Segundo Chikwamanga, aquele espaço não fazia parte dos locais inicialmente solicitados pelo partido à administração local. Por essa razão, defende que a UNITA não deveria ser obrigada a transferir a atividade para um local que não tinha escolhido.
O vice-presidente contestou ainda declarações segundo as quais a escolha do espaço estaria relacionada com a capacidade de mobilização do partido.
Na sua avaliação, a UNITA possui capacidade de mobilização no Uíge e não necessita de recorrer a um determinado local para demonstrar a sua força política.
Chikwamanga acusou ainda setores ligados ao MPLA de promoverem iniciativas públicas em datas coincidentes com atividades da UNITA, embora essas acusações não tenham sido acompanhadas de provas independentes no conteúdo divulgado.
Na mesma declaração, Álvaro Chikwamanga afirmou que a intervenção policial provocou mais de 30 feridos, incluindo pessoas que, segundo o dirigente, teriam sofrido ferimentos graves.
O número e as circunstâncias dos ferimentos deverão ser apurados através de informações oficiais e de uma eventual investigação independente.
O episódio reacendeu o debate sobre a atuação das forças de segurança durante atividades políticas em Angola, sobretudo num período de preparação para as eleições gerais de 2027.
As declarações de Álvaro Chikwamanga representam a posição da UNITA sobre os acontecimentos registados no Uíge.
As acusações de que a operação policial teria sido previamente determinada pela direção do MPLA e de que existiria uma estratégia para atingir a liderança da UNITA não foram acompanhadas, nas informações divulgadas, por provas independentes.
As autoridades policiais apresentaram uma justificação relacionada com a realização da atividade partidária junto ao Tribunal da Comarca do Uíge, enquanto a UNITA considera que essa explicação não corresponde à verdadeira motivação da intervenção.
O caso deverá continuar a gerar debate político, especialmente devido à proximidade das eleições gerais previstas para 2027 e às acusações de uso desproporcional da força levantadas pela oposição.

