Luanda — No ensaio “O legado de Neto, frustrado pelos populistas e demagogos”, o analista e académico Joaquim Jaime lança um forte apelo à reflexão sobre os 50 anos da independência de Angola, defendendo que o país precisa retomar o caminho da seriedade governativa e da competência técnica, inspirado nas lições deixadas pelo primeiro Presidente, António Agostinho Neto.
Jaime parte da célebre frase de Neto — “O mais importante é resolver os problemas do povo” — para criticar o que considera ser a crescente influência de populistas e demagogos no aparelho do Estado. O autor argumenta que muitos dirigentes são nomeados por critérios de lealdade política ou utilidade eleitoral, em vez de mérito e resultados concretos, situação que, segundo ele, tem corroído a confiança entre governantes e governados.
“Prometer o impossível gera desilusão e quebra a relação de confiança entre governantes e governados”, escreve o autor, alertando que o populismo, embora atraia aplausos momentâneos, “mina a autoridade moral do governo e destrói a credibilidade política”.
Para Joaquim Jaime, Angola vive uma transformação profunda no relacionamento entre a ação governativa e a confiança popular. O eleitorado, sobretudo jovem e urbano, exige agora resultados tangíveis — empregos, educação, serviços públicos funcionais — e mostra-se imune a discursos vazios ou promessas irreais.
O autor sustenta que o populismo e as distrações políticas são hoje os maiores inimigos do progresso, substituindo a boa governação por “espetáculo mediático e retórica inflamada”. Em contraponto, propõe um novo perfil de liderança, baseado em três pilares fundamentais:
- Competência técnica inquestionável, com nomeações baseadas no mérito e na formação;
- Visão de Estado, orientada para o bem-estar coletivo e não para a perpetuação partidária;
- Foco em resultados e prestação de contas, com metas claras, transparência e avaliação de desempenho.
O texto alerta ainda que a manutenção do poder no século XXI não depende de propaganda ou clientelismo, mas da capacidade de entregar resultados concretos. “Um governo que governa bem não precisa temer o escrutínio, porque a sua obra é a sua melhor defesa”, sublinha.
Joaquim Jaime critica o que chama de “táticas de sobrevivência política de curto prazo”, como o clientelismo, a corrupção e as obras de fachada, defendendo em seu lugar uma cultura de planeamento, avaliação e execução de políticas sustentáveis.
O autor destaca também as lições recolhidas durante uma recente visita à República Popular da China, onde observou a importância do planeamento científico, da avaliação de desempenho e da formação de quadros como bases de um desenvolvimento duradouro. Ele sugere que Angola aprenda com a experiência chinesa, adaptando-a às suas condições nacionais para fortalecer as instituições e promover a prosperidade.
“Resolver os problemas do povo não se faz com governantes populistas e irresponsáveis, mas com políticos sérios e comprometidos, que baseiam as suas decisões em evidências científicas e respeito pelas condições reais do país”, conclui.
O artigo termina com uma advertência: a distração é o inimigo do progresso. Para Joaquim Jaime, o futuro de Angola dependerá da capacidade de formar líderes disciplinados, pragmáticos e focados na missão de servir o povo — concretizando, finalmente, o legado de Agostinho Neto.

