Jerusalém — O gabinete de segurança de Israel deverá reunir-se esta noite para analisar a possível ampliação da operação militar em Gaza, uma proposta que tem gerado fortes divisões internas e preocupações quanto à segurança dos reféns ainda detidos pelo Hamas.
A reunião surge após o fracasso das últimas negociações de cessar-fogo e num momento em que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu procura novas estratégias para alcançar os objectivos do governo em Gaza. Segundo fontes oficiais israelitas, a proposta em discussão prevê um plano militar faseado que visa ocupar áreas da Faixa de Gaza ainda fora do controlo israelita.
Contudo, a medida enfrenta resistência significativa dentro das próprias Forças de Defesa de Israel (FDI). O chefe do Estado-Maior, general Eyal Zamir, manifestou-se contra a expansão da ofensiva, advertindo que tal acção colocaria em risco a vida dos reféns e sobrecarregaria as tropas israelitas. “Estamos a lidar com questões de vida ou morte. Pretendemos derrotar o Hamas, mas temos de manter os reféns em mente”, afirmou Zamir, sublinhando que as FDI estão próximas da fase final da guerra.
A oposição interna intensificou-se após comentários de Netanyahu na rede social X (antigo Twitter), sugerindo que, se Zamir discordasse da estratégia, poderia demitir-se. Apesar disso, o general reafirmou a importância do debate interno nas FDI, defendendo a liberdade de expressão e a independência técnica das forças armadas.
Enquanto o governo debate os próximos passos, familiares de reféns mantidos em Gaza manifestaram publicamente o seu receio de que uma nova ofensiva comprometa os esforços de resgate. Nesta quinta-feira, dezenas de parentes navegaram ao longo da costa de Ashkelon em direcção à Faixa de Gaza, usando altifalantes para enviar mensagens de apelo aos seus entes queridos e criticar a posição do governo.
“Netanyahu está a prolongar a guerra para manter-se no poder. Está a sacrificar os nossos filhos por interesses políticos”, declarou Yehuda Cohen, pai de um soldado sequestrado pelo Hamas, durante o protesto simbólico no mar.
No plano internacional, organizações de direitos humanos reforçaram as críticas à actuação militar de Israel em Gaza. A Human Rights Watch divulgou um relatório exigindo a suspensão das transferências de armas a Israel, após investigações revelarem que dois bombardeamentos sobre escolas palestinianas em 2024 não tinham alvos militares identificados. Os ataques mataram pelo menos 49 civis, segundo a organização.
Por sua vez, os Médicos Sem Fronteiras acusaram a Fundação Humanitária de Gaza — entidade responsável pela distribuição de alimentos no enclave — de estar envolvida em actos que classificaram como “assassinatos orquestrados”, ao invés de fornecer ajuda humanitária. Entre 7 de Junho e 20 de Julho, a ONG tratou mais de 1.400 feridos junto às instalações da fundação, incluindo vítimas que chegaram já sem vida.
De acordo com dados das Nações Unidas, mais de 850 pessoas morreram nas imediações desses centros de distribuição nos últimos dois meses. A Fundação nega as acusações e ainda não respondeu às denúncias mais recentes.
A nova ofensiva militar planeada por Israel surge num contexto de fome extrema e colapso humanitário na Faixa de Gaza, onde milhares de civis dependem de ajuda aérea e marítima para sobreviver. A pressão internacional sobre o governo israelita deverá aumentar caso avance com a expansão militar sem garantias de proteção aos civis e reféns.
A comunidade internacional, incluindo aliados históricos de Israel, já começou a manifestar preocupações quanto à escalada do conflito e ao impacto devastador da guerra sobre a população palestiniana. O resultado do encontro desta noite poderá ser decisivo para os próximos capítulos deste conflito prolongado.

