A situação financeira da Sonangol continua a gerar preocupações entre analistas económicos, que apontam para um declínio estrutural da petrolífera estatal angolana, apesar dos lucros apresentados nos relatórios mais recentes da empresa.
Ao longo dos últimos anos, diferentes vozes têm alertado para problemas de gestão, dependência excessiva de financiamento externo e dificuldades operacionais da principal empresa pública do país. Desde 2015, várias medidas de reestruturação foram implementadas, incluindo mudanças sucessivas de liderança, passando pelas administrações de Isabel dos Santos, Carlos Saturnino e do atual gestor Sebastião Gaspar Martins.
Apesar das reformas anunciadas, especialistas consideram que a Sonangol continua presa a um modelo de governação pouco transparente, marcado por baixa eficiência e forte dependência de apoios externos.
Dados recentemente divulgados indicam que, em 2025, cerca de 53% das receitas da Sonangol tiveram origem em dividendos provenientes de participações externas, como a Angola LNG, o Millennium BCP e a Galp.
Segundo os números apresentados, a Angola LNG terá gerado dividendos avaliados em 314 mil milhões de kwanzas, enquanto o Millennium BCP contribuiu com 91,5 mil milhões e a Galp com 53,8 mil milhões de kwanzas.
Analistas afirmam que a dependência dessas participações revela a fragilidade da atividade principal da empresa, ligada à exploração petrolífera. Embora a Sonangol tenha registado um lucro líquido de 862,4 mil milhões de kwanzas, a área de exploração e produção petrolífera gerou apenas 97,1 mil milhões de lucro, afetada por elevados custos operacionais, amortizações e carga fiscal.
O setor de refinação e distribuição continua igualmente a apresentar prejuízos significativos, acumulando perdas estimadas em 820,3 mil milhões de kwanzas em 2025.
As dificuldades estendem-se também aos chamados negócios não nucleares da companhia. Participações em empresas como a Clínica Girassol, Sonair, Paenal e Petromar terão acumulado perdas superiores a 707 mil milhões de kwanzas nos últimos cinco anos.
O Conselho Fiscal da Sonangol alertou ainda para problemas de liquidez, aumento da dependência de financiamento externo e crescimento dos passivos de longo prazo, fatores que podem comprometer a capacidade de investimento da empresa.
Entre as recomendações apresentadas constam a aceleração do programa de privatizações (ProPriv), a recuperação de dívidas avaliadas em mais de 8 biliões de kwanzas, renegociação de empréstimos e reforço dos mecanismos de controlo interno.
Economistas defendem que a Sonangol necessita de reformas profundas, incluindo maior abertura ao capital privado, modernização da gestão e definição clara das áreas estratégicas da empresa, sob risco de perder definitivamente a capacidade de sustentar o setor petrolífero nacional e a economia angolana.

