As parcerias internacionais do Grupo Carrinho estão sob crescente atenção pública, num contexto marcado pela ausência de informação financeira detalhada e pela complexidade das estruturas societárias envolvidas.
Entre as entidades associadas ao grupo figuram a Manty AG, sediada na Suíça e liderada por Maurice Taylor, e a Paramount Energy & Commodities SA, fundada pelo comerciante neerlandês Niels Troost.
A Manty AG é apontada como intermediária nas importações alimentares do Grupo Carrinho. Embora fontes do sector indiquem que a empresa poderá estar sob controlo do próprio grupo angolano, tal relação não é formalmente documentada em registos públicos.
No passado, o site institucional da Manty referia a Carrinho como “partner”, sem clarificar o enquadramento societário dessa parceria. Após uma reformulação da página, já em 2026, as referências tornaram-se menos explícitas, ainda que persistam menções indirectas à ligação entre as duas entidades.
A inexistência de demonstrações financeiras públicas sobre os fluxos comerciais entre a Manty e o Grupo Carrinho tem alimentado debate em Angola, sobretudo quanto à formação de preços e à estrutura dos pagamentos associados às importações.

Investimento da Paramount no complexo industrial
A segunda parceria relevante envolve a Paramount Energy & Commodities SA, que participou com 70 milhões de dólares no financiamento do Complexo Industrial Carrinho, inaugurado em 2019, na Catumbela, pelo Presidente da República, João Lourenço.
O projecto foi apresentado como um marco no processo de industrialização do país. Contudo, os termos financeiros do investimento e as condições da parceria entre a Paramount e o Grupo Carrinho não foram tornados públicos, o que tem suscitado interrogações sobre a origem dos fundos e o enquadramento contratual.
As figuras centrais das duas empresas — Maurice Taylor e Niels Troost — estiveram recentemente associadas a processos e medidas no contexto das sanções internacionais relacionadas com a guerra na Ucrânia.
Em Dezembro de 2024, Niels Troost foi incluído na lista de sanções da União Europeia ao abrigo do regime ligado à agressão russa contra a Ucrânia. A decisão implicou restrições financeiras e limitações de viagem, com efeitos a partir de Abril de 2025. As autoridades britânicas adoptaram medidas semelhantes ao abrigo da sua legislação de sanções.
Segundo informação divulgada pelas instituições europeias, a Paramount teria transferido operações relacionadas com petróleo russo para uma subsidiária no Dubai, alegadamente comercializando acima do limite de preço estabelecido por países ocidentais. Troost, actualmente residente na Suíça, contestou publicamente as acusações, afirmando ser alvo de uma campanha movida por um antigo sócio.
Maurice Taylor, por sua vez, foi mencionado como “indivíduo associado” a Troost em documentação europeia. Em Abril de 2025, intentou uma acção contra o Conselho da União Europeia, alegando danos reputacionais decorrentes dessa referência. O Tribunal declarou o pedido inadmissível, uma vez que o seu nome já tinha sido removido da lista. Taylor já havia enfrentado, anteriormente, restrições no âmbito de controlos de exportação de armamento nos Estados Unidos.

Ambos rejeitam qualquer envolvimento em práticas ilícitas
Não existem provas públicas que indiquem participação directa do Grupo Carrinho em operações sujeitas a regimes sancionatórios europeus ou britânicos. Ainda assim, a associação a parceiros que enfrentaram medidas restritivas internacionais levanta questões sobre os mecanismos de due diligence adoptados e o nível de escrutínio aplicado às alianças empresariais.
Observadores sublinham a ironia de um projecto industrial frequentemente apresentado como símbolo da cooperação internacional e do progresso económico angolano ter contado com financiamento de uma empresa cujo fundador foi posteriormente alvo de sanções europeias e britânicas — circunstância que permanece contestada pelo próprio.
A combinação de factores — ausência de contas públicas detalhadas do Grupo Carrinho, opacidade das estruturas financeiras das suas parceiras e referências internacionais a operações sensíveis no sector energético — cria um ambiente propício a especulação. Até ao momento, porém, não foram apresentadas provas de irregularidades por parte do grupo angolano.
Em matérias que envolvem contratos públicos, garantias estatais e apoio institucional ao mais alto nível, especialistas defendem que maior transparência poderá contribuir para dissipar dúvidas e reforçar a confiança pública.

