A corrida ao secretariado-geral da Organização da Mulher Angolana (OMA), que prometia ser inédita em 2026 por contar, pela primeira vez em mais de 30 anos, com duas candidatas, terminou com polémica após a renúncia inesperada de uma das concorrentes. O episódio voltou a alimentar críticas sobre a democracia interna do MPLA, sobretudo num contexto pré-eleitoral.
Inicialmente, o processo foi visto como um sinal de abertura, depois de Emília Carlota Dias e Graciete Sungua terem as suas candidaturas aprovadas no âmbito do processo eleitoral interno da OMA. As propostas foram validadas pelo Bureau Político do MPLA a 19 de janeiro. No entanto, apenas um dia depois, a renúncia de Graciete Sungua alterou por completo o cenário, deixando Emília Carlota Dias como candidata única.
A desistência gerou suspeitas de interferência política, levantadas por setores da imprensa e por analistas da vida política angolana. Contactada sobre o assunto, Graciete Sungua optou por não comentar as circunstâncias da sua saída da corrida.
Para o ativista e comentador Amadeu Lucas, o episódio representa um duro golpe na imagem do partido no poder. Segundo afirmou, a situação compromete toda a narrativa construída em torno da maturidade democrática do MPLA, deixando marcas difíceis de apagar no discurso político do partido.
O 8.º Congresso Ordinário da OMA está agendado para os dias 28 de fevereiro e 1 de março, em Luanda, sob o lema “Mulher angolana: Unidas para transformar os desafios em conquistas”. O evento deverá reunir mais de 2.500 delegadas, provenientes de todas as províncias do país e da diáspora, e assume particular relevância por ocorrer num ano pré-eleitoral.
Outro ativista, Cruz de Deus, considera que o caso confirma a falta de pluralismo interno no MPLA. Na sua leitura, a retirada de Graciete Sungua não foi voluntária, mas resultado de pressões, o que, segundo ele, desmonta a ideia de que o partido pratica democracia interna efetiva.
Emília Carlota Dias, agora única candidata ao cargo de secretária-geral da OMA, é deputada do MPLA eleita pelo círculo nacional. Já integrou a Assembleia Constituinte em 2010 e exerceu funções como primeira vice-presidente da Assembleia Nacional. No processo interno da OMA, foi a mais votada pelo Comité Nacional, com 115 votos, contra 49 atribuídos a Graciete Sungua.
Analistas recordam ainda que Graciete Sungua apresentava um percurso político e profissional considerado sólido e que teria recebido manifestações públicas de apoio, incluindo elogios atribuídos a Tchizé dos Santos, o que, segundo observadores, poderá ter gerado desconforto nos círculos do poder.
Além da eleição da nova liderança, o congresso da OMA terá como missão definir as linhas estratégicas da organização para o período 2026–2031, num momento considerado decisivo para o MPLA e para o seu braço feminino.

