Lisboa – Pelo menos três militantes do partido Chega integram o grupo de 37 pessoas detidas no âmbito da operação “Irmandade”, desencadeada pela Polícia Judiciária (PJ) para desmantelar uma organização de ideologia neonazi suspeita de crimes de ódio contra estrangeiros.
De acordo com informações divulgadas pela imprensa portuguesa, os detidos ligados ao Chega são Rui Roque, João Peixoto Branco e Rita Castro, todos anteriormente candidatos do partido em diferentes atos eleitorais. Os três estão indiciados por crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência, no contexto de ações dirigidas contra cidadãos estrangeiros.
Rui Roque, apontado como líder do núcleo de Faro do grupo 1143, ganhou notoriedade interna no Chega após apresentar, em 2020, no congresso do partido realizado em Évora, uma moção polémica relacionada com o aborto, que acabou rejeitada pela maioria dos delegados. O seu percurso político teve início no antigo Partido Nacional Renovador (PNR), tendo posteriormente aderido ao Chega, onde se destacou pela participação em protestos de extrema-direita, sobretudo contra a imigração.
Os outros dois militantes detidos são naturais de Guimarães. João Peixoto Branco, de 37 anos, integrou a concelhia local do Chega e foi candidato a uma junta de freguesia nas autárquicas de 2021. Está igualmente associado a episódios de violência em manifestações ligadas ao grupo 1143, incluindo uma agressão registada no ano passado contra um ativista antifascista. Rita Castro, de 29 anos, também residente na mesma freguesia, integrou a lista do Chega à Câmara Municipal de Guimarães nas eleições autárquicas.
Além destes três casos, um quarto militante do Chega, Tirso Faria, líder do núcleo de Santo Tirso do grupo 1143, é referido no processo, mas não foi detido.
A operação “Irmandade” decorreu em vários pontos do país e resultou, no total, em 37 detenções e na constituição de 15 arguidos. Entre os detidos encontram-se ainda um agente da Polícia de Segurança Pública (PSP) e um militar. A ação foi coordenada pela Unidade Nacional Contraterrorismo da PJ, com o envolvimento de cerca de 300 inspetores.
Segundo a Polícia Judiciária, o grupo investigado é suspeito de integrar uma organização criminosa dedicada à prática de crimes de ódio, incluindo incitamento à violência, ameaças, coação agravada, agressões qualificadas e posse de armas proibidas. As autoridades referem que os detidos apresentam antecedentes criminais e mantêm ligações a redes internacionais de extrema-direita violenta, inspiradas na ideologia nazi e em motivações racistas e xenófobas.
No decurso da operação foram realizadas 65 buscas, domiciliárias e não domiciliárias, que permitiram a apreensão de material de propaganda neonazi, merchandising associado à extrema-direita radical e diversas armas.
A PJ confirmou ainda a realização de buscas à cela de Mário Machado, apontado como líder do grupo 1143, das quais resultaram na apreensão de elementos considerados relevantes para a investigação, cujo conteúdo não foi divulgado.
Os detidos deverão ser presentes ao Tribunal Central de Instrução Criminal de Lisboa para primeiro interrogatório judicial, onde serão decididas as respetivas medidas de coação.

