Luanda — O economista e analista político Joaquim Jaime comparou o actual sistema de endividamento dos países africanos a um “navio negreiro metamorfoseado”, acusando o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial de perpetuarem um modelo neocolonial que mantém o continente preso a ciclos de dependência e perda de soberania económica.
Segundo o autor, as instituições financeiras internacionais substituíram as práticas coloniais clássicas por mecanismos modernos de controlo, como relatórios económicos, empréstimos condicionados e programas de ajustamento estrutural. Esses instrumentos, afirma, têm imposto cortes severos em serviços públicos, privatizações de activos estratégicos, abertura comercial forçada e eliminação de subsídios essenciais, enfraquecendo as economias locais e aumentando a pobreza.
Jaime lembra que, desde a década de 1980, o FMI e o Banco Mundial tornaram-se os principais credores dos países africanos, impondo políticas económicas padronizadas que raramente resultam em desenvolvimento sustentável. Dados da Oxfam indicam que mais da metade dos países mais pobres do mundo terão de reduzir gastos públicos em 229 mil milhões de dólares nos próximos cinco anos, enquanto continuarão a pagar quase meio milhar de milhão de dólares por dia em juros e amortizações até 2029.
Organizações como a Human Rights Watch e o Fórum e Rede Africana sobre Dívida e Desenvolvimento (AFRODAD) denunciam que tais políticas estão a agravar as desigualdades e a limitar o investimento em saúde, educação e infraestrutura. Em 2024, a África pagou 163 mil milhões de dólares em juros sobre a dívida, valor superior ao gasto com sectores sociais vitais em diversos países.
O presidente do Banco Africano de Desenvolvimento, Akinwumi Adesina, comparou recentemente a crise da dívida africana a um paciente com hemorragia que precisa de socorro urgente, defendendo uma reforma da arquitectura financeira global, que considera desfavorável ao continente.
Para Joaquim Jaime, a saída passa pela suspensão das dívidas consideradas ilegítimas, pelo fim dos programas de ajustamento estrutural e pelo fortalecimento de instituições financeiras africanas, como um Banco Central Africano e um Fundo Monetário Africano. O analista defende ainda o controlo soberano dos recursos naturais e a independência militar, como forma de impedir ingerências externas.
“África não é pobre — é empobrecida”, afirma, acrescentando que o verdadeiro desenvolvimento só será possível quando o continente deixar de seguir receitas económicas impostas de fora e assumir, de forma colectiva, um novo paradigma económico baseado na justiça social, na valorização do conhecimento local e no fortalecimento do sector produtivo interno.

