Em meio a uma das maiores ondas de protestos da história recente do país, o presidente da Associação Nacional dos Taxistas Angolanos (ANATA), Francisco Paciente, surpreendeu ao negar o envolvimento da organização na greve de três dias que paralisou a capital e resultou em violentos confrontos, deixando ao menos 30 mortos e mais de 270 feridos.
Em declarações à imprensa, Paciente afirmou categoricamente que “a ANATA não foi a organizadora da greve de três dias, pois a paralisação já havia sido desconvocada”. Seguindo a retórica do governo, ele atribuiu a mobilização a “pessoas estranhas” que teriam se infiltrado para promover atos de vandalismo e violência.
A fala gerou forte repercussão e críticas, pois contradiz diretamente a atuação da própria ANATA, que, durante os dias da paralisação, teria orientado e apoiado os taxistas por meio de seus canais oficiais. A página da organização chegou a divulgar conteúdos encorajando os motoristas a manterem a greve e resistirem ao lado da população, indicando um envolvimento ativo da associação nos protestos.
A crise se intensificou após a prisão do vice-presidente da ANATA, que foi detido e rotulado de “terrorista” pela Televisão Pública de Angola (TPA). O dirigente havia declarado publicamente que “a ANATA e os seus associados mantêm a greve”, demonstrando liderança e engajamento no movimento grevista. Sua detenção, seguida do afastamento público de Francisco Paciente, levanta questões: estaria o presidente da ANATA traindo seu vice para salvar a própria pele?
A postura de Paciente vem sendo interpretada por muitos como uma tentativa de proteger-se politicamente, mesmo que isso signifique deixar um aliado direto à mercê das autoridades. Para críticos, a atitude soa como um ato de covardia e traição, especialmente em um momento em que vários membros da ANATA – e mesmo cidadãos não ligados formalmente à associação – vêm sendo perseguidos, detidos ou até mortos sob acusações de terrorismo e subversão.
Em um contexto de crescente repressão, o caso expõe as divisões internas da ANATA e acende o debate sobre a legitimidade das lideranças sindicais diante de pressões governamentais. Resta saber se Francisco Paciente conseguirá manter sua posição, agora envolto em críticas e contradições públicas.

