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Seca reduz produção de energia hidroeléctrica

O mais recente relatório da Agência Internacional de Energia avança que as emissões globais de CO2 relacionadas com a energia aumentaram 1,1% em 2023, atingindo um nível recorde.

O mais recente relatório da Agência Internacional de Energia avança que as emissões globais de CO2 relacionadas com a energia aumentaram 1,1% em 2023, atingindo um nível recorde. © Onur Coban

A que se deve este aumento das emissões globais de CO2?

Francisco Ferreira da Zero, dirigente da organização ambientalista Zero, Este aumento, infelizmente, é a consequência de continuarmos a ter uma predominância muito grande do uso de combustíveis fósseis na produção de electricidade à escala mundial. Mas há também razões particulares que levarem a este aumento que, mesmo assim, foi inferior àquele que se verificou no ano anterior, entre 2021 e 2022. Nós tivemos um aumento de 410 milhões de toneladas, ou seja, 1,1% em 2023 em termos de emissões em relação a 2022 e de 2021 para 2022 tínhamos tido um aumento de 490 milhões de toneladas. Começa a haver aqui uma ligeira estabilização, mas, como digo, este aumento é explicado, em grande parte, por muitas secas.

Uma das causas apontadas é a fraca produção de energia hidroelétrica associada às secas severas e prolongadas em várias regiões do mundo. A falta de água pode ameaçar a agenda climática?

A falta de água já é, sem dúvida, uma consequência das alterações climáticas. É também um factor de agravamento dessas próprias emissões. Ou seja, temos aqui como que um ciclo positivo onde o clima leva ele próprio a termos maiores emissões. É o caso principalmente da Índia, onde o regime de monções foi diferente do habitual e, portanto, levou a uma redução significativa da produção hidroeléctrica. E também em Portugal, nós vimos como as emissões foram muito significativas não em 2023, mas em 2022, por causa da seca, quando as renováveis têm nas centrais hidroelétricas uma percentagem ainda importante.

A China, que acrescentou 565 milhões de toneladas de CO2 ao total mundial, prosseguiu o crescimento económico intensivo depois da crise da pandemia da covid-19. A China continua a ser a avestruz, mete a cabeça debaixo de terra, ao não querer ver as ameaças que representas as alterações climáticas?

A China tem aqui um misto de aspectos positivos e negativos, porque realmente o recurso ao carvão e a meta que a China tem de apenas atingir a neutralidade climática em 2060 está longe daquilo que se acha ser possível pelo país que, neste momento, tem a maior pegada carbónica à escala mundial.

A China não tem conseguido, mesmo com o abrandamento da sua actividade económica, garantir objetivos mais ambiciosos na área do clima. Mas, por outro lado, a China, e isso transparece neste relatório, foi o país que em 2023 colocou tanta capacidade de painéis fotovoltaicos para aproveitar a energia solar como todo o resto do mundo em 2022. E, portanto, sem dúvida que nós temos um misto de uma transição energética a ser feita por parte da China, mas por outro lado, os objectivos podiam e deviam ser mais ambiciosos.

Esta tendência é contrária à das economias avançadas, que registaram uma redução recorde das emissões, com a utilização do carvão no nível mais baixo desde o início do século XX. São Boas notícias?

Estamos realmente a abandonar cada vez mais o uso do carvão. Em Portugal, 2021 foi o último ano em que recorremos ao carvão para a produção de eletricidade e, portanto, mesmo que recorramos a outros combustíveis fósseis-aqui refiro-me ao gás natural, o que é facto é que as emissões são praticamente cerca de um terço para produzir a mesma eletricidade em comparação com o carvão. Há aqui uma diferença avassaladora quando nós conseguimos retirar o carvão da equação.

Agência internacional de energia faz questão de sublinhar o importante contributo das “energias limpas”, incluindo as renováveis…

É absolutamente crucial, porque a transição energética passa por termos um uso mais eficiente da energia, não desperdiçarmos, mas fazermos um fortíssimo investimento nas fontes de origem renovável.

Quanto mais diversificadas forem, melhor. Juntarmos numa mesma equação o vento e o solar. Mas temos também, sem dúvida, a hídrica, que agora com os períodos de seca, se está a mostrar mais vulnerável. Há também o uso da biomassa da queima de madeira, que pode ser problemático, principalmente se não queimarmos resíduos de floresta e se estivermos a queimar madeira boa, devendo ir para outros usos que não a combustão. Realmente, nós com mais energias renováveis- com o recurso a veículos eléctricos que também permitem aí reduzir o uso do petróleo, os biocombustíveis para substituir o petróleo e alguns outros combustíveis fósseis- poderemos estar aqui a fazer esta mudança. Ainda assim estamos a fazê-la de forma muito lenta.

No relatório, a agência internacional de energia lembra que são precisos mais esforços?

Nós deveríamos ter um pico das emissões em 2025 e, a partir daí, as emissões à escala mundial estarem a descer. Isto se quisermos assegurar que não ultrapassamos um aumento de um 1,5 grau em relação à era pré-industrial e porque, mais do que isso, significa consequências mais dramáticas para o planeta e para a humanidade.

Mas, apesar destes esforços, estamos realmente longe daquilo que é necessário e desejável e, portanto, a Agência Internacional de Energia começa a mostrar que existem sinais nesta transição energética, mas reconhece que realmente o mundo está longe de fazer o caminho que tem vindo a ser discutido nas conferências do Clima, a última das quais no Dubai em Dezembro passado.