A Polícia Nacional voltou a travar, este sábado, em Luanda, uma marcha organizada por ativistas da sociedade civil para protestar contra abusos cometidos contra mulheres e crianças, tendo detido mais de uma dezena de participantes, incluindo membros da organização do protesto.
Lusa
Segundo relatos de ativistas no local, o Largo do Mercado de São Paulo, ponto inicialmente definido para a concentração da marcha, foi desde as primeiras horas do dia fortemente ocupado por agentes policiais, apoiados por viaturas e pela brigada canina, o que acabou por impedir qualquer tentativa de reunião dos manifestantes.
A marcha, inicialmente agendada para o início do mês, tinha sido autorizada pelo Governo Provincial de Luanda após adiamento, mas com alteração do percurso. As autoridades propuseram que o protesto decorresse entre o Largo do Cemitério da Santa Ana e o Largo das Escolas, uma opção rejeitada pela organização, que decidiu manter o trajecto original entre o Largo do Mercado de São Paulo e o Largo das Heroínas.
Entre os detidos encontra-se a ativista Laurinda Conde, uma das organizadoras da iniciativa. O ativista Jaime Mussinda, conhecido como “Jaime MC”, condenou a atuação policial e afirmou que os cidadãos detidos não recorreram a qualquer forma de violência. Segundo explicou, o objetivo da concentração era apenas exigir respeito pela dignidade da mulher e denunciar a violência de género.
Para Jaime Mussinda, membro do Movimento Cívico Mudei, a interdição da marcha e as detenções demonstram uma postura do Estado que, no seu entender, penaliza iniciativas que apelam ao respeito pelos direitos humanos e pela dignidade da pessoa humana. O ativista classificou ainda a ação policial como uma violação do direito à manifestação pacífica, consagrado na Constituição angolana.
Também presente no local, a ativista Leila Futila criticou a intervenção das autoridades e exigiu a libertação imediata dos manifestantes detidos, considerando injustificável a repressão de um protesto pacífico, quando persistem crimes graves e impunidade no país.
Por sua vez, a ativista e especialista em direitos humanos Flora Telo descreveu como “insensível e absurda” a postura das autoridades, sublinhando que os casos de violência contra mulheres e crianças são recorrentes em Angola e mereciam uma mobilização nacional. Referiu, como exemplo, um recente caso envolvendo uma menor de 15 anos, cuja agressão física e sexual foi amplamente divulgada nas redes sociais, salientando que a marcha pretendia também manifestar solidariedade à vítima.
Alguns ativistas deslocaram-se ainda ao Largo do Cemitério da Santa Ana, onde também se encontrava um dispositivo policial. Contactado pela Lusa, o porta-voz do Comando Provincial de Luanda da Polícia Nacional não prestou esclarecimentos até ao momento.

