Realiza-se esta quinta-feira, em Genebra, a terceira ronda de negociações indiretas entre o Irão e os Estados Unidos sobre o programa nuclear iraniano. O encontro, confirmado por Omã — que tem atuado como mediador — acontece num contexto de elevada tensão militar no Médio Oriente e sob forte pressão política em Washington e Teerão.
A questão central mantém-se: poderá esta ronda aproximar as partes de um novo entendimento nuclear ou arrisca-se a aprofundar a confrontação?
O retomar das conversações surge após contactos indiretos facilitados por Omã, que permitiram reabrir canais diplomáticos entre as duas capitais. O ministro dos Negócios Estrangeiros omanita, Badr Albusaidi, confirmou a realização da reunião, indicando que o objetivo passa por reduzir divergências técnicas ainda em aberto.
A ronda anterior, também realizada em Genebra, centrou-se sobretudo na questão do enriquecimento de urânio — o ponto mais sensível do dossiê nuclear. Washington tem defendido um modelo de “enriquecimento zero”, embora fontes norte-americanas admitam alguma flexibilidade limitada, desde que existam garantias inequívocas de que o programa iraniano não poderá ser desviado para fins militares.
A administração do Presidente Donald Trump procura impor limites mais rigorosos ao enriquecimento de urânio e reforçar os mecanismos de verificação internacional. Além disso, Washington pretende alargar as discussões ao programa de mísseis balísticos do Irão e à sua atuação regional.
Em contrapartida, poderá ser equacionado um levantamento gradual de sanções económicas, condicionado à aceitação de medidas adicionais de confiança e supervisão reforçada pela Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA).
Trump advertiu recentemente que a diplomacia poderá ter um prazo curto, sugerindo que em “10 a 15 dias” poderá ser claro se existe progresso significativo.
O Governo iraniano insiste que as negociações devem incidir exclusivamente sobre o programa nuclear. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, lidera a delegação iraniana e sustenta que o enriquecimento tem fins civis, nomeadamente energéticos, e enquadra-se nas regras internacionais de não proliferação.
O Presidente Masoud Pezeshkian declarou que as rondas anteriores produziram “sinais encorajadores”, mas advertiu que o país está preparado para qualquer cenário.
Por sua vez, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Esmaeil Baghaei, afirmou que qualquer ataque norte-americano seria considerado um “ato de agressão”, prometendo resposta proporcional.
Teerão rejeita ainda a ideia de um acordo provisório imposto sob pressão, sublinhando que não aceitará condições que considere excessivas ou politicamente motivadas.
As negociações decorrem sob uma das maiores concentrações de meios militares norte-americanos no Médio Oriente desde 2003. Porta-aviões, caças e meios navais adicionais foram posicionados no Golfo, num claro sinal de pressão estratégica.
A possibilidade de uma ação militar limitada foi admitida por Trump caso a via diplomática falhe — um cenário que contribui para elevar o risco regional.
As atuais conversações têm como referência o **Plano de Ação Conjunto Global** (JCPOA), assinado em 2015. O acordo impunha restrições ao programa nuclear iraniano em troca do levantamento de sanções.
Em 2018, os Estados Unidos retiraram-se unilateralmente do entendimento, reimpondo sanções. Em resposta, o Irão expandiu progressivamente atividades nucleares para além dos limites inicialmente acordados.
Diplomatas admitem que dificilmente sairá de Genebra um acordo final abrangente. O cenário mais plausível poderá passar por um entendimento interino, assente em medidas graduais de confiança — como alívio parcial de sanções em troca de maior monitorização internacional.
O principal obstáculo permanece inalterado: conciliar o direito reivindicado por Teerão a manter tecnologia nuclear civil com as exigências de segurança de Washington.
Com o tempo descrito como limitado pelos Estados Unidos e o Irão a garantir que responderá a qualquer agressão, esta terceira ronda poderá revelar-se decisiva — seja como primeiro passo para um novo compromisso, seja como prelúdio de uma escalada diplomática e militar num dos dossiers mais sensíveis da política internacional.

