Florindo Chivucute, diretor da organização Friends of Angola, denunciou em Berlim práticas de corrupção, violações de direitos humanos e prioridades governamentais que considera incompatíveis com a realidade social do país. As declarações foram feitas durante o World Liberty Congress, evento dedicado ao combate à cleptocracia e ao autoritarismo, que reuniu activistas e organizações internacionais no Parlamento alemão.
Entre os temas levados por Chivucute ao encontro estiveram o adiamento das autárquicas, o aumento das detenções de presos políticos, a crise socioeconómica e, sobretudo, os elevados gastos associados ao polémico jogo de futebol entre Angola e Argentina.
Segundo o activista, não é o jogo em si que causa controvérsia, mas os valores envolvidos. “Estamos contra os gastos avultados. Mais de 20 milhões de dólares de dinheiro público estão a ser usados numa altura em que o país vive momentos muito difíceis”, afirmou.
Chivucute recorda que Angola enfrenta uma escalada da pobreza, falta de professores e abandono escolar, escassez de água potável e serviços de saúde debilitados. Para ele, “com tantos problemas socioeconómicos, não se justifica usar dinheiro público para uma partida de futebol”.
“O futebol está a ser usado para desviar a atenção”
Apesar da grande afluência de público ao jogo, o diretor da Friends of Angola acredita que os angolanos não se deixam distrair da sua realidade. “Esta é uma tática comum em países autoritários: usar o futebol para desviar a atenção. Mas não será suficiente. As pessoas vão voltar para os seus bairros sem água, para os seus filhos fora da escola”, disse.
Chivucute sublinha que a indignação tem crescido, não apenas entre cidadãos, mas também entre líderes religiosos e figuras de vários sectores políticos.
A presença de Chivucute em Berlim coincidiu com a visita oficial do Presidente da Alemanha a Angola. No entanto, os temas ligados à democracia e aos direitos humanos não foram destacados pelas autoridades alemãs, situação que o activista considera preocupante.
“É lamentável que estas questões não tenham sido parte da agenda. As democracias precisam unir-se para além dos interesses económicos”, defendeu, recordando que a Europa também enfrenta desafios relacionados com a guerra na Ucrânia e o avanço do autoritarismo.l
Chivucute reforça que, enquanto Angola enfrenta fome, desemprego e carências básicas, o foco do governo deveria ser outro. “É urgente que as autoridades priorizem o bem-estar dos cidadãos. Não se trata apenas de economia, mas de direitos humanos e dignidade”, concluiu.
O World Liberty Congress terminou com apelos à cooperação internacional para travar práticas autoritárias e fortalecer a transparência e a democracia em países onde estas continuam ameaçadas.

