Luanda – Os recentes episódios de vandalismo ocorridos durante a greve dos taxistas em Luanda reacenderam o debate sobre a relação entre criminalidade, desigualdade social e governança em Angola. Enquanto o discurso oficial tem insistido na condenação das ações como meros atos criminosos, vozes críticas apontam para uma leitura mais ampla e complexa do fenómeno.
De acordo com analistas políticos e sociais, o vandalismo, embora ilegal e punido pela legislação angolana, não pode ser compreendido apenas como uma afronta à ordem pública. Para muitos, trata-se de uma expressão extrema da insatisfação popular diante de anos de promessas não cumpridas, desemprego crescente, inflação e precariedade dos serviços públicos.
“O cidadão comum vê os luxos das elites enquanto luta para sobreviver. Esse contraste alimenta uma revolta legítima”, afirma um especialista em políticas públicas. Essa frustração, segundo ele, foi acentuada após o ciclo eleitoral de 2018/2019, quando esperanças de mudança deram lugar à desilusão generalizada.
Para além da repressão policial, que muitos consideram uma resposta insuficiente e contraproducente, cresce o apelo por soluções políticas estruturais. A crítica recai também sobre o recente posicionamento do partido no poder, o MPLA, que teria, segundo os críticos, ignorado as causas profundas dos protestos ao focar apenas na condenação dos atos de vandalismo ocorridos no dia 28 de julho.
Em países como Moçambique, episódios semelhantes revelam que a violência urbana, em contextos de desigualdade, não surge isoladamente, mas como sintoma de falhas sistémicas. Assim, especialistas defendem que enfrentar o vandalismo exige mais do que força: requer diálogo, justiça social e reformas institucionais.
Entre as medidas propostas estão a renovação do governo, com substituição de figuras-chave nas pastas económica e social, o combate à ostentação por parte das elites políticas, e a realização urgente de eleições autárquicas. Para os defensores dessa agenda, aproximar o poder das comunidades e promover um modelo de governança participativa é essencial para restaurar a confiança nas instituições.
A construção de canais permanentes de diálogo com a sociedade, especialmente nas periferias urbanas, é vista como outro passo fundamental. “Não se governa com gás lacrimogéneo. Governa-se com escuta, com presença, com políticas públicas eficazes”, reforça um sociólogo ouvida pela reportagem.
Ignorar essa realidade, alertam os especialistas, pode transformar a tensão social em conflito aberto, prejudicando a coesão nacional e corroendo a esperança de milhões. Para muitos, o vandalismo, longe de ser apenas um ato de desordem, é um apelo desesperado por dignidade – algo que não se impõe pela força, mas se conquista com justiça e inclusão.
O desafio de Angola, portanto, não é apenas conter os atos de revolta, mas reconstruir as bases de um país mais justo, mais equilibrado e verdadeiramente democrático.

