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HomeÁFRICAMoçambique: Rapto de jornalista "é sinal" do que virá nas eleições

Moçambique: Rapto de jornalista “é sinal” do que virá nas eleições

A jornalista moçambicana Sheila Wilson, do CDD, foi sequestrada pela polícia quando reportava em direto sobre um protesto em frente às Nações Unidas. O CDD vai processar o Estado e teme o pior nas eleições de outubro.

Uma ativista e jornalista do Centro para Democracia e Direitos Humanos (CDD) foi sequestrada em condições brutais por agentes da polícia, um gesto que ficou registado em imagens.

A organização não-governamental garante que vai até às últimas consequências na Justiça para responsabilizar os agentes que cercearam a liberdade de imprensa e violaram os direitos humanos. Tudo terá acontecido na esteira de “ordens superiores”, diz o diretor do CDD.

Em ano de eleições gerais, Adriano Nuvunga considera que este ato é apenas o prenúncio do vai acontecer em outubro.

Adriano Nuvunga, diretor do CDD
Adriano Nuvunga: “A brutalidade da polícia é um instrumento para a manutenção da FRELIMO no poder”

DW África: Em que circunstâncias foi sequestrada ou detida a jornalista do CDD?

Adriano Nuvunga (AN): A Sheila Wilson foi, na verdade, sequestrada pela polícia ontem, às 19 horas, quando se encontrava a reportar para as nossas páginas do Facebook a situação desumana, de violação de direitos humanos, com que a polícia estava a tratar aqueles indivíduos que acamparam em frente às Nações Unidas a exigir as suas pensões.

Os polícias não queriam que viesse a público a forma desumana, a barbaridade com que trataram aquelas pessoas, particularmente o momento em que algumas daquelas pessoas conseguiram correr e entrar nas instalações das Nações Unidas. E a polícia perseguiu, entrou dentro das instalações das Nações Unidas, agrediu fisicamente as pessoas. É isto que os polícias não queriam que fosse visto.

DW África: Que justificação apresentou a polícia para esta detenção ou sequestro e para a apreensão do equipamento do grupo de média Soico?

AN: Disseram simplesmente que receberam ordens superiores de um general, que deu ordem de que todo o indivíduo que estivesse ali para reportar a situação devia ser detido. Por isso, sequestraram-na para impedir que o povo soubesse o que estava a acontecer.

O que eles não sabiam é que a minha colega estava a reportar em direto para o Facebook e mesmo o momento em que ela foi sequestrada foi captado pela imagem do telefone dela. Está claro que a polícia a sequestrou.

DW África: As redes sociais são hoje uma ferramenta fundamental, na denúncia de violações e abusos. Acha que isso é um fator dissuasor para uma polícia prevaricadora?

AN: Absolutamente. Sem redes sociais, sem o Facebook e outras plataformas, Moçambique seria um Estado autoritário. Não estão a conseguir porque estamos em tempo real a reportar. Por isso, o espaço das liberdades se expandiu muito com as redes sociais. É mesmo por isso que eles estavam a encarecer o custo da Internet, para impedir as pessoas de terem acesso a essas plataformas.

Sheila Wilson, ativista dos direitos humanos e jornalista do CDD
Sheila Wilson, ativista dos direitos humanos e jornalista do CDDFoto: CDD

DW África: O gesto da polícia evidencia claramente uma violação da liberdade de imprensa e de respeito pelos direitos humanos. Há algum interesse do Estado em reformar a polícia que já há muito opta por essas práticas violentas?

AN: Não. A brutalidade da polícia, a maneira desumana com que a polícia reprime as liberdades e os direitos fundamentais, incluindo o direito à vida, é um instrumento para a manutenção da FRELIMO no poder. Permite que as pessoas fiquem com medo e a FRELIMO se mantenha no poder. Por isso, este governo da FRELIMO não tem o mínimo de interesse num Estado de Direito Democrático.

DW África: Dentro de quatro meses, Moçambique realiza eleições. Este abuso policial já sinaliza momentos conturbados para a imprensa moçambicana?

AN: É um déjà vu das eleições de 2023, do que se viu nas eleições de 2023, onde a polícia matou pessoas.

Em Nampula e aqui em Maputo, a polícia usou balas reais para dispersar pessoas, atacou jornalistas e aquelas eram eleições municipais. Agora que são as eleições presidenciais, vamos ver isso em escala muito maior, para impedir que o cidadão possa utilizar o seu voto para punir a corrupção da FRELIMO, para punir esse desgoverno e o crime organizado, acarinhado por este Governo.

DW África: Confia que a Justiça moçambicana venha a responsabilizar os polícias prevaricadores, neste caso, se o CDD apresentar queixa?

AN: Vamos imediatamente avançar com uma queixa contra o Estado moçambicano. Temos de ter fé na Justiça, mas conhecemos quem também opera com base em ordens superiores. Por isso, vamos explorar também mecanismos internacionais, incluindo denunciar esses indivíduos que dão ordens ilegais à Interpol e outras polícias internacionais para os impedir de viajarem, para compreender que o mundo não tolera esse tipo de crimes com que se funda e se baseia o Estado moçambicano.