A decisão de libertar reservas estratégicas de petróleo para responder à atual crise energética poderá aumentar a vulnerabilidade de Portugal caso a situação internacional se agrave. O alerta foi feito por responsáveis do setor, numa altura em que o mercado global enfrenta fortes perturbações.
A instabilidade nos preços dos combustíveis está ligada ao conflito envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irão, que já provocou constrangimentos significativos na oferta mundial. Um dos principais fatores é o bloqueio do Estreito de Ormuz, uma via estratégica por onde circula cerca de 20% do petróleo global.
Perante este cenário, a Agência Internacional de Energia aprovou a libertação de 400 milhões de barris das reservas estratégicas dos países membros — a maior ação coordenada de sempre. O objetivo é aumentar a oferta disponível e travar a escalada dos preços.
Portugal, enquanto membro da organização, deverá contribuir com parte das suas reservas. O Governo admitiu disponibilizar cerca de 10% do total armazenado, o equivalente a aproximadamente dois milhões de barris.
Dados recentes da Entidade Nacional para o Setor Energético indicam que, no final de 2025, Portugal dispunha de cerca de 1,56 milhões de toneladas de produtos petrolíferos. Parte dessas reservas encontra-se em território nacional, enquanto outra fração corresponde a acordos com países como Espanha e Países Baixos, permitindo acesso em caso de necessidade.
As reservas físicas incluem petróleo bruto, gasóleo, gasolina e gás, armazenados sobretudo em infraestruturas energéticas como Sines e Aveiras, além de instalações partilhadas com entidades internacionais.
Segundo especialistas do setor energético, a libertação de reservas tem como principal função responder a falhas de abastecimento e não necessariamente reduzir preços. Experiências anteriores mostram que este tipo de intervenção tende a ter efeitos limitados no mercado.
Apesar disso, espera-se que o aumento temporário da oferta possa, pelo menos, abrandar a subida dos combustíveis. Ainda assim, os efeitos reais dependerão da evolução do conflito e da normalização das cadeias de abastecimento.
Responsáveis da indústria alertam que o uso destas reservas deve ser feito com cautela. Quanto maior for a quantidade libertada, menor será a capacidade de resposta caso a crise se intensifique.
A lógica é comparada à gestão de poupanças: utilizar recursos em situações não críticas pode comprometer a capacidade de resposta em cenários mais graves. Por isso, o recurso às reservas deve equilibrar necessidades imediatas com a segurança energética futura.
As regras internacionais obrigam os países a manter reservas equivalentes a cerca de 90 dias de consumo. Após a libertação, os Estados terão de repor esses níveis, num processo que normalmente decorre ao longo de alguns meses.
Ainda não está definido o calendário exato para essa reposição, devendo a decisão ser tomada em reuniões entre os governos europeus e entidades internacionais.
A evolução da crise permanece imprevisível, o que dificulta antecipar se serão necessárias novas libertações de reservas. Autoridades internacionais admitem essa possibilidade, caso as perturbações no mercado energético persistam ou se agravem.
Para já, o foco está na estabilização dos mercados, embora o cenário continue marcado por elevada incerteza quanto ao impacto do conflito no fornecimento global de energia.

