A evolução mais lenta da economia chinesa poderá ter consequências profundas para vários países africanos, incluindo Angola e Moçambique, segundo um relatório do grupo de reflexão norte-americano Rhodium Group. O estudo avisa que a transformação do modelo económico da China obrigará os governos africanos a repensar estratégias de crescimento e de diversificação.
Lusa
De acordo com a análise, “à medida que o modelo económico da China perde fôlego”, os países africanos precisam preparar-se para um parceiro comercial e financeiro que poderá ter um papel diferente daquele que desempenhou na última década.
O documento identifica Angola como um dos países mais sensíveis a esta mudança. A China continua a ser um dos principais compradores do petróleo angolano, mas o relatório antecipa uma possível estagnação — ou até queda — das importações de crude africano. A tendência é atribuída ao avanço da transição energética chinesa, à expansão dos veículos elétricos e à redução da intensidade energética da sua economia.
Este cenário pode afetar as receitas fiscais, as exportações e a capacidade de Angola cumprir as obrigações da dívida externa. O estudo lembra que Luanda já paga mais a Pequim em amortizações do que recebe em novos financiamentos, o que agrava o risco económico.
Para Moçambique, a situação apresenta nuances diferentes. Embora também exposto às flutuações da procura chinesa por matérias-primas, o país tem ganho destaque na produção de minerais críticos essenciais para a transição energética, como a grafite.
O relatório prevê uma procura chinesa estruturalmente forte por estes minerais, mas alerta que os benefícios dependerão da capacidade de Moçambique atrair investimento produtivo e avançar na cadeia de valor.
Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe têm uma exposição direta mais reduzida, mas o estudo sublinha que continuam vulneráveis a efeitos indiretos, como choques regionais, oscilações dos preços das matérias-primas ou alterações nos fluxos financeiros globais.
O comércio de bens entre África e a China aproxima-se atualmente dos 300 mil milhões de dólares por ano — cerca de 10% do PIB do continente — mas permanece marcado por fortes desequilíbrios: África exporta principalmente petróleo, minerais e produtos agrícolas, enquanto importa produtos manufaturados, travando a industrialização local.
No campo financeiro, o estudo destaca uma tendência de queda no crédito chinês a África. Os bancos chineses mostram-se mais prudentes, concentrando-se na resolução de problemas internos e na renegociação de dívidas já existentes.
Em Moçambique, o fluxo líquido de dívida tornou-se negativo — o país paga hoje mais do que recebe. Angola também é apontada como uma das economias africanas mais dependentes do crédito chinês.
Apesar da retração no financiamento, o investimento direto estrangeiro chinês mantém-se mais resistente. Em 2024, somou cerca de 11 mil milhões de dólares, principalmente nos setores de mineração, energia e construção. Angola e Moçambique continuam entre os principais destinos, embora com investidores mais seletivos.
O Rhodium Group conclui que nenhum cenário beneficia de forma homogénea todas as economias africanas, mas considera que uma China capaz de implementar reformas estruturais e crescer de modo mais lento, porém estável, oferece as melhores perspetivas.
“O ideal para África continua a ser uma China que reforme com êxito o seu modelo económico, orientando-o para o consumo interno, permitindo fluxos comerciais e de investimento mais sustentáveis”, refere o relatório.

